sebenta de anotações esparsas, pensamentos ociosos, reflexões cadentes, poemas difusos, introspecções de uma filosofia mais ou menos opaca dos meus dias (ou + reminiscências melómanas, translúcidas, intra e extra-sensoriais, erógenas, esquizofrénicas ou obsessivas dos meus dias)
-
cahier de notes éparses, pensées oisives, réflexions filantes, poèmes diffus, introspections d'une philosophie plus ou moins opaque de mes journées (ou + de réminiscences mélomanes, translucides, intra-sensorielles et extra-sensorielles, érogènes, schizophrènes ou obsessionnelles de mes journées)

domingo, 26 de agosto de 2007

Vem comigo

A banda original sonora da minha vida está riscada
passo como um fantasma por ela
como se apenas a assombrasse
como se apenas tivesse dela
o ténue e translúcido retrato
que deixam os dedos suados
numa vidraça entre dois mundos indistintos.

Turista de universos paralelos
passageiro da vida
como se observasse tudo de outro lugar.

Devolveram-me o rascunho.
Desenha outro!, ordenaram-me.
Mas eu fiz birra, disse que já não queria, era o que faltava!
Desatei aos pontapés com a vida
e com um revés de mão violento
varri do estirador a minha dor
e todos os meus papéis certinhos
misturei o passado ao futuro
porque já não tenho, não estou nem sou presente.

Tinha saudades do que podia ser
procurava incansavelmente o círculo que não existe.
Tudo é apenas alucinação, vertigem
e eu caí na espiral, na miragem.

Preciso escapar de mim mesmo
para sair ileso daqui.
A vida é um caminho
que não vai dar a lugar nenhum,
mas tu gostas de pensar que sim,
porque é isso que te faz correr, pular, dançar, amar,
dar cambalhotas no lençol.

O nosso encontro não foi por acaso.
Acredito que tens de me dar a tua mão.
Eu também estou perdido,
mas juntos vamos conseguir sair daqui,
ou pelo menos não nos vamos perder em nós.

Não olhes para trás, já lá nos fizeram demasiado mal.
Eu sei que tens medo, agarra-te bem a mim.
O nosso encontro não foi por acaso.
Há um caminho que conduz a qualquer lado
não sei bem onde, mas não podemos ficar aqui.

Despe-te!, ouve o que eu te digo.
Retira os trapos que os outros te vestiram
e apontaram e disseram que eras tu.
Eu quero-te só a ti e tu não és assim!
Diante dos teus espelhos tens de estar nua.
Olha para mim, pensas que acredito na perfeição?
Procuro apenas a sinceridade do coração,
uma alma sem anemia, um peito que não teme entregar-se.

Quanto menos sentido o mundo faz
mais procuro um sentido a tudo isto
um caminho que explique o princípio e não o fim.

Não fiques para trás, já nada te espera aqui,
apenas cinzas do passado,
vestígios baços dos dias em que acreditámos,
estrume do que podia ter sido.
De que vale um futuro que não foi,
os sonhos prometidos, arrancados como espinhos
ao coração, um beijo de amor, que já não significa nada?

Vem comigo! Descalça e nua, comigo, até ao fim deste trilho.
Não é um castigo, é uma oportunidade, tens de acreditar!
Não em mim! Em ti!

Este não é o teu fado, o teu destino escolhes tu!
Amor é ferida que não se sente e que arde sem se ver?
Olha as minhas veias abertas, achas que já não sangro?
Repara nas pontas queimadas dos meus dedos,
já brinquei demasiado com o fogo.

Eu sei que estamos perdidos, mas para escaparmos daqui,
temos apenas de seguir em frente,
chega de bifurcações, de desvios,
não olhar mais para trás, mas para diante.

Vais passar quanto tempo aqui,
a contemplar as lágrimas e o sangue do nosso desengano?
Não esperes a noite, que é escura e fria.
Se quiseres o meu abraço, não peço nada em troca,
apenas que venhas comigo.

Não sei por onde vou, mas sigo o instinto da luz,
a fragrância da manhã que há-de nascer,
com a promessa de um novo dia.

Caminha só um pouco comigo,
não me deixes sozinho neste caminho,
eu também tenho medo do desconhecido.

JLC 260807 / Lago de Echternach

quinta-feira, 23 de agosto de 2007

O que são os Cadernos do Gaspar?

Na minha curta e cometaica carreira literária, assumo-me com o pseudónimo Alexandre Gaspar Weytjens, ou só A. Weytjens ou apenas Gaspar (aka AGW). Foi uma personagem que me nasceu entre as entranhas e o cerebelo (e acreditem que doeu!) por volta de 1994, em pleno 2° ano de faculdade, em Estrasburgo, quando me foi solicitado para participar no jornal literário da Residência Universitária Paul Appel. Ao contrário de outras esquizofrenias benignas (Daniela A. ou F.F. Júnior), esta vingou.

Durante muito tempo, A. Weytjens escreveu para a gaveta ou para um público mais ou menos escolhido a dedo, que sempre o reconfortou com elogios qualitativos que careciam obviamente, como espectadores próximos do objecto que eram, de rigor e objectividade.

Quando começou a ser lido por um público maior do que o seu círculo de amizades, sem quase dar por isso, muito graças ou por causa do sucesso crescente do blog Os Cadernos do Gaspar, passou a responder naturalmente ao nome de... Gaspar.

O primeiro volume dos meus cadernos está disponível online em www.cadernosgaspar.blogspot.com e foi escrito num dia-a-dia fictício e extrapolado das minhas próprias vivências e no fim de contas desembocou num pequeno romance "pulp" erótico-romântico-policial. A sua leitura deve ser efectuada seguindo as datas em que foram escritos os cadernos de modo a entender-se o enredo da história.

O segundo volume, inteiramente independente do primeiro, está disponível em www.cadernosgaspar2.blogspot.com , e é, para já, uma sebenta de anotações esparsas, pensamentos ociosos, reflexões cadentes, poemas difusos, introspecções de uma filosofia mais ou menos opaca dos meus dias.

Por vezes, acrescento um clip youtubano ou excertos de livros que estou a ler para proporcionar aos meus leitores férias da minha torpe literatura e da minha não menos ilustre rotina. A sebenta dos cadernos pode ser lida aleatoriamente.

JLC (The Real McCoy)

quarta-feira, 22 de agosto de 2007

hoje decidi que...

Punkt. Period. Ponto final, parágrafo. Aliás, virar a página. Tourner la page. No more drama. No more pain.

terça-feira, 21 de agosto de 2007

"And what can I tell you my brother, my killer, what can I possibly say?"

(Aaron, "Famous blue raincoat")

segunda-feira, 20 de agosto de 2007

God zooming on me?


"Todos dizem que Deus é mudo, mas ninguém pensa na surdez dos homens!" / "Tout le monde dit que Dieu est muet, mais personne ne pense que les hommes sont sourds!"

Michel Boujenah (humorista francês/humoriste français)

domingo, 19 de agosto de 2007

domingo inane


Ai que prazer
não cumprir um dever.
Ter um livro para ler
e não o fazer!
Ler é maçada,
estudar é nada.
O sol doira sem literatura.
O rio corre bem ou mal,
sem edição original.
E a brisa, essa, de tão naturalmente matinal
como tem tempo, não tem pressa...

Livros são papéis pintados com tinta.
Estudar é uma coisa em que está indistinta
A distinção entre nada e coisa nenhuma.

Quanto melhor é quando há bruma.
Esperar por D. Sebastião,
Quer venha ou não!

Grande é a poesia, a bondade e as danças...
Mas o melhor do mundo são as crianças,
Flores, música, o luar, e o sol que peca
Só quando, em vez de criar, seca.

E mais do que isto
É Jesus Cristo,
Que não sabia nada de finanças,
Nem consta que tivesse biblioteca...

Fernando Pessoa, "Liberdade"

rainy sunday, sleepy afternoon

walk away!

It was cool but it was all pretend
wasn't long till I called you mine
I even fell for that stupid love song
how come i'd never hear you say
I just wanna be with you
guess you never felt that way
but since you been gone
I can breathe for the first time
i'm so moving on
you had your chance, you blew it
I’m looking for attention
not another question
should you stay or should you go
well if you don’t have the answer
why you still standing here?
just walk away!

What you see's not what you get
With you there's just no measurement
No way to tell what's real from what isn't there
Your eyes they sparkled
that 's all changed into lies that drop like acid rain
you washed away the best of me
you don't care
you know you did it
I'm gone
to find someone to live for in this world
there's no light at the end of the tunnel tonight
just a bridge that I gotta burn
you are wrong
if you think you can walk right through my door
that is just so you
coming back when I've finally moved on
Sometimes shattered
Never open
Nothing matters
When you're broken
That was me whenever I was with you
Always ending
Always over
Back and forth, up and down like a rollercoaster
I am breaking
That habit
Today
I'm already gone
there is nothing you can say
sorry doesn't cut it babe
take the hit and walk away
'Cause I'm gone
Doesn't matter what you do
It's what you did that's hurting you
All I needed was the truth
Now I'm gone

I want a love
I want a fire
To feel the burn, my desires
I want a woman by my side
Not a child who runs and hides

(Kelly Clarkson Random Listening - adapté des chansons de Kelly Clarkson, "since you been gone", "gone" et "walk away")

ride the snake

"Preferir o saber dos caminhos à frivolidade do pensamento das sobrancerias, cavalgar a linha branca da estrada. (...) Para um escritor, a única forma de viajar é improvisando, flanando..."

Bernard-Henri Lévy, "American Vertigo"

sexta-feira, 17 de agosto de 2007

échafaud II

quand l’épée te traverse aussi soudainement, tu la sens toujours?

quand la dague s’est plantée tellement profondément que tu ne sais plus si c’est de la douleur , ressens-tu toujours le coup porté?

quand le sang te coule encore chaud des mains, le reconnais-tu comme tien?

quand tu n’entends plus le vaccarme du coup de feu e que tu constates le trou noir sur ta poitrine fumante, est-ce le moment opportun pour savoir que tu dois mourir?

quand le brûlis dévaste une nouvelle fois la terre est qu’elle n’est plus combustible, que reste-t-il à brûler?

quand tu perds pied e que tu sais que la mer va te remplir la gueule et les narines et les orbites des yeux, es-tu encore en vie pour penser à tout celá?

quand le désert te brûle les poumons avec sa poussière, as-tu encore soif?

quand tu passes en vol plané par le dixième étage en fonçant droit sur le sol, sens-tu encore tes veines qui pulsent à l’envers?

quand tu te désintègres en un seul souffle d’explosion, que deviens-tu?

quand le soleil se noircit e il ne fait plus jour ni nuit, où es-tu?

quand tous te disent que tu es un monstre, dois-tu continuer à vivre?

Docilement, tu t’agenouilles devant tes bourreaux,

les yeux bien ouverts tu aperçois la vérité dans les leurs,

tu couches ta tête sur le bout de poutre

tu remets ta nuque à la justice

la foule en délire se taît haletante

le ciel respire une, deux fois,

pendant quelques brefs instants tu as la sensation que tu arrives a entendre le soleil qui brûle.

Soudain, tu n’entends ni ne sens plus rien.

La main de l’ange est-elle intervenue pour toi, stoppant net le dernier instant?

Tu peux lever les yeux?

Si ton sang ne coule pas autour de toi, est-ce bon signe?

S’il n’y a plus de foule, ni de lame, ni de ciel,

et que le soleil est noir e qu’il ne fait plus jour ni nuit, où es-tu?



AGW

cadafalso II

quando a espada te atravessa tão repentinamente, ainda a sentes?
quando o punhal foi tão fundo que tu já não sabes se é dor que desatina sem doer, ainda é golpe?
quando o sangue te escorre das mãos e ainda está quente, ainda é teu?
quando já não ouves o estrondo do tiro e vês o buraco negro no teu peito fumegante, é a altura certa para saberes que deves morrer?
quando a queimada devasta mais uma vez a terra e ela já não é combustível, o que mais há para arder?
quando perdes pé e sabes que o mar te vai encher as goelas e as narinas e as órbitas dos olhos, ainda estás vivo para pensar nisso tudo?
quando o deserto te queima os pulmões com pó, ainda tens sede?
quando passas a voar pelo 10° andar a caminho do solo, ainda sentes as tuas veias a pulsar arrepiadas?
quando te desintegras num só sopro de explosão, para onde vais?
quando o sol fica negro e já não é dia nem é noite, onde estás?
quando todos te dizem que és um monstro, deves continuar a viver?
...
Docilmente, ajoelhas-te perante os teus carrascos,
de olhos bem abertos vês a verdade nos seus,
deitas a cabeça no madeiro,
entregas a nuca nua à justiça,
a multidão em delírio cala-se ofegante,
o céu respira uma, duas vezes,
durante uns breves instantes tens a sensação que consegues ouvir o sol a arder.
De repente já não ouves, não sentes nada.
A mão do anjo veio intervir por ti e paralisou o derradeiro momento?
Já podes levantar os olhos?
Se o teu sangue não escorre à tua volta, é bom sinal?
Quando já não há multidâo, nem gume, nem céu,
e o sol ficou como bréu e já não é dia nem é noite, onde estás?

AGW

terça-feira, 14 de agosto de 2007

Bullet proof

Quand je ferme les yeux

la douleur disparaît

le bruit s’éteint

le monde se tait

j’oublis le corps immonde


je ne vois plus le cratère noir et nauséabond que la balle à laissé sur ma poitrine

le trou putride sur ma nuque par ou on m’a arraché le cœur

les images sordides ne me tourmentent plus le cerveau en décomposition

les vils instants ne grouillent plus sur mes paupières comme des insectes dégueulasses

l’abject venin ne m’immobilise plus le sang souillé dans mes artères


je m’étends sur le drap blanc sur la table de la cuisine

à sang froid, je rebrousse ma peau, je tire les veines,

j’extrait tout le poison qui reste dans les blessures encore ouvertes

dans la bassine le sang averse et haineux dégouline en pus perfide


je secoue l’enveloppe maculée

je l’expose à la lumière du jour

je prends une aguille d’argent

et je recous les trous béants

le corps purifié et prêt

pour d’autres


et si je fermais les yeux à cette vitesse

maintenant sur l’autoroute ?

ni même mil hordes d’anges en furie

accrochés à mes bras

ne me sauverait de moi-même !


AGW
Jihad

Les pointes des étoiles brûlent la lune rouge qui croît
Le ciel en feu griffe le visage bleu
d'Orient arrivent de nouveaux rois mages du mot,
mais tout ce qui brille n'est pas d'or.
J'entends le vacarme des batailles qui ont commencé
quand les eaux du déluge n'avaient même pas encore séché
les terres. Aujourd'hui, c'est le sang qui ne séche plus.

Et moi, apeuré par les nouvelles invasions barbares
et les promesses vides que le crépuscule renferme
je me cache derrière la croix d'or indigo, j'assiste aux fous sans dire mot
et ils me poussent vers l'abîme.
La caravane impassible passe, pendant que les chiens n'aboient pas,
se préparent. Je sens l'odeur du désert.
Je suis assoiffée de mandarines d'argent, d'ivoire,
de cannelle, de menthe psychotique et de safran.

Avec mes bagages je dégringole
les escaliers de l'hotel
mes burnes bourrés à rabord.
Je comprends enfin que l'enfant est otage de la perfection,
que la sérénité et la clareté de l'impasse sombre,
que sont l'idéalisme dogmatique et acnéique,
dépendent uniquement de l'égotisme, de la tolérance
et de la lutte qui doit toujours commencer du dedans
avec ma propre jihad.

Ce n'est ni une faute, ni un recul.
C'est prendre de l'élan, un horizon plus grand,
pour sauter plus loin.

Socrates pointe son nez à ma porte
et répète qu'il ne sait rien sur rien.
Je regarde ma montre de éon
les flèches de l'Halocène clignotent
la brise du matin retarde ses ailes.
La nuit grise et brumeuse va encore s'attarder.

AGW
scaffold


This time, the desert will not win,

it will not swallow my longs with dust.

What happened after the storm

when the river broke the deck

before i even anchored into the estuary?

I don't want to remember that ominous day,

the gospel lied, the world didn't end.

From the towers, I see on the horizon

judgment day's black clouds

spreading through the numbed sky

anouncing thunder.

Is it worth to let the wind blow into the sails and save the ship?,

it endured already so many assaults!

Today, I'm not afraid anymore,

i knew this day would come.

The smell of blood and powder remains on my bold fingers,

I've done too much evil to escape now.

This time, my time is over.

The shockwave will not get me from the ground.

I'll close my mouth to the tsunami, I'll shut my eyes to the hurricane,

electricity will run through my body

but i'll still be standing,

laughing brashly to my executioners and slayers,

even if the crowd, claiming for a show,

will not ear my last words

"25 men on a dead man's chest,
yo ho ho and a bottle of rum!..."

I'm thirsty, but even the sky will open to save me anymore.


AGW

Tempête

Un crépuscule de juillet. Il pleut comme à la fin du monde.

J’expérimente les eaux et le froid sur mon corps.

De petites mers se déversent en de grandes gorgées dans le caniveau,

le vent fuit les impasses, le tonnerre traverse le ciel hanté et moi ma vie.

Si tu étais ici maintenant, me sentirais-je plus heureux ?

Si tu m’enlaçais en cette heure, aurais-je encore peur ?

Le ciel impénétrable oublie le monde trempé…

Et toi, où es-tu ? Enroulée dans ton gilet en laine, lisant mon livre, à la lumière de l’abat-jour ? As-tu déjà écouté l’eau ?

L’océan s’ouvre à l’envers et chaque goutte cherche le sol comme le salut,

têtes penchées les arbres nettoient lourdement leur visage sur l’asphalte,

des silhouettes dans la pénombre passent comme des fantômes à mes pieds.

Sans défense sous la pluie, le vent cherche mon échine,

la voûte céleste se déchire

sur mes tempes, chaque goutte qui m’atteint à quelle vitesse tombe-t-elle,

à quelle vitesse explose-t-elle sur ma peau ?

La douleur, après le cri. Le nef céleste se tord en convulsion,

une clarté fugace rompt l’arc. Ce n’est pas Dieu agacé,

ne sont pas les nuages qui se déchargent, ce n’est pas le cycle se perpétuant.

C’est le ciel voulant se voir, comme Narcisse, au miroir.

Moi aussi, j’ai découvert le chemin me menant vers toi.

Je ne me suis tout simplement pas encore décidé à le prendre.




segunda-feira, 13 de agosto de 2007

Oh Soledad, dime si algún día habrá

entre tú y el amor buena amistad.

Vuelve conmigo a dibujar las olas del mar,

dame tu mano una vez más.


(in "Soledad", La Oreja de Van Gogh)

petite ballade



« Je n'entends pas écrire une ode à la dépression, mais chanter victoire aussi vigoureusement que Chanteclerc au matin, debout sur son perchoir, quand ce ne serait que pour réveiller mes voisins. »

("Walden", Henri David Thoreau)

Photos: A.Weytjens, Liefrange-Esch/Sûre)

domingo, 12 de agosto de 2007

sur mes déambulations meeticiennes...et la vie, tout court!



...c'est encore le fabuleux Grand Corps Malade qui en parle le mieux, dans ses "Rencontres". Je lui laisse la (les) parole(s) sur mon blog. Bon dimanche ensoleillé!

sábado, 11 de agosto de 2007

morse

"...quis pedir ajuda,
mas a língua estava morta.
Sei lá! Parei de olhar, tenho
uma corda acesa, prestes
a rasgar. Não és
capaz de me levar
a sério. Vou saltar
em teu lugar."

"...j'ai voulu demander au secours, mais ma langue était morte. Qu'est-ce que j'en sais! J'ai arrété de regarder, j'ai une corde allumée, prête à se déchirer. Tu ne prends pas eu sérieux. Je vais sauter à ta place."

- in "Luz Vaga", de Mesa (letra e música: João Pedro Coimbra)

sexta-feira, 10 de agosto de 2007

Superbus - Butterfly



Pour S. et les deux papillons dans la nuit, libérés de leur cocon.

quinta-feira, 9 de agosto de 2007

Gerir os transportes no Grão-ducado como numa grande área metropolitana

Por uma verdadeira
política dos transportes

Exceptuando talvez a A13 ("Collectrice du Sud")

– cuja solução é a transformação de alguns troços em verdadeira auto-estrada com ligação inevitável às congéneres da Bélgica e de França e da resolução do nó de Hellange, em direcção a Schengen –

o problema dos engarrafamentos de todas as restantes auto-estradas do país é estas se dirigirem para e em saída da capital, sem escapatória possível, tornando esses eixos concêntricos literalmente nós rodoviários difíceis de destrinçar.

Diariamente, nas auto-estradas A3, A4 e A6 que ligam o sul, o leste e o oeste à cidade do Luxemburgo, repete-se o mesmo lamentável cenário. Horas críticas em que se consegue circular, na melhor das hipóteses, a "passo de caracol".

Recordo nestas ocasiões aquele episódio caricato de um amigo meu que uma manhã pensou ser possível vir do aeroporto de Bruxelas à cidade do Luxemburgo em pouco mais de uma hora. Em Porsche! Sem querer incentivar à violação do código da estrada e a repreensíveis excessos de velocidade, posso dizer-vos que ele até teria conseguido, já que demorou uma hora de Bruxelas... a Arlon! O problema foi depois. De Arlon a Hollerich demorou mais uma. O episódio não é apenas caricato, mas verdadeiramente sintomático! Mas é este o quotidiano de alguns milhares de automobilistas que tentam aceder à mesma cidade simultaneamente utilizando infra-estruturas já obsoletas para a realidade actual.

Um país com 600 mil pessoas

E qual é a realidade actual? Um país que já tem que suportar diariamente mais de 600 mil pessoas: cerca de 460 mil residentes + c. 130 mil fronteiriços, entre mais alguns milhares que estão de passagem, em negócios ou lazer.

Ou seja, não estamos longe do número de 750 mil pessoas prognosticado pelo primeiro-ministro Jean-Claude Juncker e que tanto alvoroço causou há uns anos. Um conhecimento básico da situação actual do mercado do trabalho e do fluxo rodoviário teria chegado para evitar tanta histeria.

Assim, todas as manhãs são mais de 130 mil os trabalhadores fronteiriços que afluem à capital luxemburguesa. E o mesmo número que parte ao entardecer. A maioria de carro, com um só ocupante, o que representa depressa quase tantos veículos como pessoas. Basta ver o número de automóveis de matrícula estrangeira nos P&R e outros tantos nas ruas e parques de estacionamento da capital.

Acresce que o Grão-Ducado é o país europeu com mais automóveis per capita , e que mesmo nós, os residentes, somos os que mais continuamos a preferir o transporte privado em detrimento do público.

O Governo discute ad eternum variantes, desvios e tangentes. E se se pode até entender que estudos de impacto ambiental levem tempo a concretizar e analisar, é preciso tomarmos consciência que essas soluções são necessárias há anos, que são hoje mesmo urgentes, e que os congestionamentos se intensificam, se não de dia para dia, de semana para semana.

Cada vez mais, as horas de ponta deixaram de ser apanágio dos engarrafamentos, proliferando agora o trânsito intenso a qualquer hora nas auto-estradas para a capital.

E basta um despiste ou uma colisão, mesmo menos grave, para que as auto-estradas, na sua grande maioria com apenas duas faixas de rodagem, entupam. O caos instala-se. É a fuga para as C.R. (estradas secundárias)! Mas até estas não chegam para tanto "deus-nos-acuda". Pior ainda em horas de ponta: os congestionamentos alargam até às localidades adjacentes às auto-estradas e aos bairros periféricos da capital.

Os ecologistas vituperam contra o alastramento do alcatrão, não querem saber de mais faixas de rodagem nem de mais asfalto, preconizando alternativas mais amigas do ambiente.

O problema é que projectos ecológicos que partam do Estado, como um eléctrico ligeiro para a capital, demoram anos a ser aprovados, outros tantos a ver a luz do dia, enquanto que outros ainda nem saem do papel.

Porque não um modelo de eléctrico-comboio híbrido para todo o país? Um comboio ligeiro fora das cidades e que funcionaria como um eléctrico no espaço urbano, conceito que chegou a ser considerado quando se começou a discutir nos anos 90 que tipo de eléctrico escolher para a cidade do Luxemburgo?

Ou porque não ir mais longe, criando uma rede de eléctrico que funcionasse entre a cidade do Luxemburgo e zonas nevrálgicas específicas do país que cresceram muito em termos urbanos ou deverão crescer nos próximos anos como Belval, Dudelange, Differdange, Mamer-Kap, Strassen-Bertrange, o triângulo Grevenmacher-Wasserbillig-Echternach, a "Nordstad" (Diekirch e Ettelbruck), como se de um verdadeiro metropolitano se tratasse e tivesse que servir a superfície do país como a área de uma grande capital europeia.

Mas até entre a capital e as cidades fronteiriças de Trier, Arlon, Thionville e Metz, de modo a incentivar os fronteiriços a não vir de automóvel.

Falta de ambição...ou de visão?

Primeiro, seria ainda preciso ligar bem os bairros da capital – a Gare ao Hamm, Cents, Pfaffenthal e Kirchberg, até ao Findel.

O que está, de momento, planeado para o eléctrico na capital, cuja primeira linha deverá abrir ao público em 2012 (se não ocorrerem os habituais atrasos, inerentes a este tipo de obras!) é algo com uma singular falta de ambição. Como se tudo tivesse sido feito para não levantar polémicas entre a população, que está ainda, na sua grande maioria, contra o "esventramento" das ruas da cidade do Luxemburgo para a instalação de um eléctrico.

O actual trajecto proposto pelo Ministério dos Transportes prevê uma linha Gare-Findel, pela avenue de la Liberté, av. de la Porte Neuve e Kirchberg. Mas a ligação da estação central ao Findel por Bonnevoie, e por Cents e Neudorf, por forma a "desencravar" esses bairros, não deveria ser igualmente descurada. Quanto ao Limpertsberg, seria o ponto central ideal para funcionar como plataforma entre o Kirchberg, a baixa da cidade e uma linha de eléctrico oeste no sentido dos bairros de Merl, Belair, com desvios para Sul, via Hollerich e Cessange de forma a fechar o círculo por Gasperich, Howald-Hesperange e, finalmente Gare.

Para os que retorquem que essas zonas já são hoje servidas por autocarros e que esses circulam muitas vezes vazios num movimento de ioiô inane, deve contrapor-se que não só um eléctrico polui menos, como é mais pontual e passa mais frequentemente do que um autocarro que os utentes depressa esquecem para preferir o automóvel.

E que dizer da falta de coordenação inteligente entre semáforos sucessivos que permitissem um fluxo regular e contínuo em muitas das grandes artérias da capital?

Luxemburgo, área metropolitana

E porque não gerir o país como uma grande área metropolitana?

Talvez a ideia, embora parecendo desproporcionada e megalómana, não só resolvesse os problemas do excesso de trânsito, como favorecesse as ligações em transporte público entre localidades de pequena e média dimensão, sem que a capital servisse sempre de ponto de passagem obrigatória. O que aliviaria simultaneamente o fluxo de entradas e saídas na capital.

Só quem já tentou deslocar-se de Remich até Esch, ou de Rodange a Redange, em transporte público, percebe onde quero chegar! Aos fins de semana sobretudo, é melhor esquecer a tão apregoada "mobilidade" do Ministério dos Transportes . Nem recorrendo ao site "mobiliteit.lu", lançado em 2002, se chega lá. Um portal que responde a todas as expectativas em termos de informações úteis, só que estas depois, frequentemente, não funcionam na prática, porque os atrasos de comboios e autocarros fazem perder as correspondências respectivas. Quem se arrisca a ficar perdido no meio do "no man's land" da província luxemburguesa?

Enquanto se tergiversa na capital sobre o eléctrico, isoladamente é essa a alternativa corajosa que deverá ser adoptada pelas autarquias de Ettelbruck e Diekirch, para fomentar, junto dos seus seus mais de 20 mil moradores, a mobilidade em transporte público entre as duas cidades.

A mesma falta de visão fez com que nenhum membro do Governo reagisse à proposta recente surgida por parte do sindicato OGB-L em prolongar a A7 até Wemperhardt (fronteira norte do país), tornando mais fluída a circulação para a Bélgica, o que seria também facilitado com a criação de circulares em Ettelbruck e Feulen no sentido Wiltz e Bastogne?

Experiências positivas como a "partilha de boleias" ("car pooling"/"co-voiturage"), mostraram já infelizmente toda a sua limitada eficácia.

As pistas cicláveis, apesar de terem aumentado em algumas cidades, nem sempre dispõem de itinerários com princípio, meio e fim.

A introdução das bicicletas de aluguer (uma boa ideia à partida!) não diminuiu de forma consequente o trânsito em Esch/Alzette, primeira cidade a importar do estrangeiro o conceito em 2004, no que deverá ser brevemente imitada pela autarquia da capital.

Mas são soluções residuais, que funcionam como complemento e não como alternativa.

Enquanto isso, os comboios continuarão a vir apinhados das zonas fronteiriças-dormitório e das principais cidades do Grão-Ducado, o trânsito de carros ligeiros e o caos rodoviário crescerão, os autocarros persistirão a chegar religiosamente atrasados e, consequentemente, os peões a transformar-se em novos automobilistas. Multiplicara-se-á intempestivamente o transporte privado, que é precisamente o que se quer evitar. Mas quer-se mesmo? A única ideia que o Governo luxemburguês ainda não teve foi o de decretar o pagamento de uma portagem para a entrada na capital, à semelhança do que acontece em Londres, o que não só seria abusivo como prejudicaria o pequeno comércio do centro em detrimento das grandes superfícies da periferia. Mas motivaria os automobilistas a optar pelos transportes públicos?

É urgente uma verdadeira política dos transportes em três tempos: a curto, médio e longo prazo, adaptada não só aos problemas de hoje mas aos que possam surgir de futuro, tendo em consideração o constante aumento demográfico, as novas zonas urbanas e de actividade, a chegada de mais mão-de-obra fronteiriça e os milhares de estudantes e profissionais estrangeiros que a Universidade nascente aguarda.

O IVL – Conceito Integrado de Desenvolvimento do Território e dos Transportes – parece ser a resposta a todos os problemas. Mas deixa demasiadas questões em aberto e muitos projectos em embrião. Resta tornar mais expeditos tanto as decisões políticas como os trâmites administrativos e ministeriais que daí advêm.

José Luís Correia (in Contacto 08.08.07)

quarta-feira, 8 de agosto de 2007

un peu sonné par cette foutue bataille...

J'ai des butterfly, des papillons en pagaille

Ton visage se dessine dans les moindre détails
Un peu sonné par cette foutue bataille
Je m'accroche a tes mots dans le moindre détail

J'ai des butterfly, des emotions en pagaille
Mon ventre se tort avant de te dire bye bye
Un peu sonné par ce foutu détail
Ta voix résonne au fond de mes entrailles

*
Superbus "Butterfly" (Wow, 2006)

segunda-feira, 6 de agosto de 2007

a queda

Hoje sei como e porque razões os homens estão condenados à danação do inferno, o que anteriormente não entendia Não compreendia devido à minha inocência idiota e crédula, à minha ingenuidade pacóvia, bacoca, infantil e ao meu esforço de colhão mole, de débil profundo de querer acreditar no homem

O homem, na sua queda, acredita que pode suspender a trajectória alucinada, que é possível escapar ao solo que se aproxima a grande velocidade? Pensa realmente que enquanto não se rebentar todo contra o chão, tudo está bem, tudo é ainda possível? O ponto de não retorno já passou Era lá em cima Mas ele ainda não sabe

(Diário-060807, A.Weytjens)

domingo, 5 de agosto de 2007

A bruma e a madrugada

Há mais coisas que nos ligam ao rei Hamurabi (*1) do que ao biónico Ralph 124C 41+ (*2). Estamos hoje mais próximos dos primeiros egípcios do que do próximo homem "transgénico" (*3) ou ciborgue (*4). E embora sejamos já o "rascunho" do embrião desse primeiro humanóide modificado, se seguirmos a linha imaginária traçada há mais de um século por Darwin, não podemos deixar que essas hipotéticas ramificações da nossa eventual evolução sejam desculpa para outras derivas.
Consequência directa da nossa entrada fulminante na era industrial-tecnológica, o nosso poder aumentou exponencialmente mais depressa do que a nossa sabedoria. É já um lugar comum dizê-lo. Mas mesmo assim...
Hoje mais do que nunca, numa época em que, não contentes por já termos feito recuar e depois dizimado a flora, a começámos a manipular geneticamente para nosso proveito, numa altura em que alguns cientistas já trabalham com células estaminais em busca da panaceia universal e cada vez mais pós-modernos Prometeus aventam a possibilidade da clonagem humana, é preciso atentar para que não sucumbamos nem ao mal nem à cura. Devemos saber avaliar e usar com inteligência, ética, moral, e sobretuto cautelosamente, os poderes que vamos tendo à nossa disposição.
A nossa histeria pela potência nuclear matou milhares de seres humanos nas guerras e catástrofes do século passado, mais do que em todos os conflitos e cataclismos juntos nos séculos anteriores, quando devia ser precisamente a razão de um salto evolutivo e a solução para todos os problemas energéticos. Por ora, gostamos de sentir que dominamos esse recurso, mesmo se temos consciência de que ainda não é bem o caso.
Hoje, mais do que aniquilarmos o que somos, podemos alterar tudo aquilo que ainda podemos vir a ser.
Estamos a alcançar em poucos séculos o equivalente ao que a anterior era – que começara com a invenção da escrita cerca de 4 mil anos antes de Cristo – levou milénios a conquistar. O próximo boom ainda demorará, mas virá mais depressa do que se supõe.
E embora pareça, não é o fim. É apenas o princípio, a aurora da Humanidade. E apesar da bruma primitiva que nos submerge, há que abrir bem os olhos ramelosos.
Daqui a muitos séculos e eras, os nossos descendentes, mesmo que já nem se nos assemelhem física e culturalmente, partilharão connosco, quiçá, os instintos, como defendiam Jung e Freud. Ou até alguns valores comuns, como nós a Filosofia com Sócrates.
Mas se derivas houver, o único frágil mas indissociável cordel que ainda nos ligará a esses seres orwellianos será apenas a História. Seremos o seu Passado e eles o nosso Futuro. A História não como a interpretação dos factos dignos de registo pela nossa memória colectiva, e cujo valor dos mesmos se altera consoante os critérios socioculturais dos que os estudam e analisam nas diferentes épocas, mas a História reduzida à sua expressão mais simples, a linearidade temporal (História=Tempo). A História será a única a nos unir, resistindo às revoluções, choques e contra-choques civilizacionais, aos cataclismos naturais, às eras e até aos cometas ómega (*5). Mas o que restará de humano em nós?
As gerações vindouras, que nos irão substituindo neste planeta ou mesmo já noutro, nos seus primeiros tempos de aprendizagem (vulgo "escola"), entre uma aula de Matemática Fractal e uma de Cosmologia Dimensional, sorrirão, por ventura, ao aprenderem em Sociologia Primitiva Humana que os seus antepassados eram barbaramente carnívoros neste nosso tempo primário, e que lutavam e se matavam por hegemonias, delimitavam territórios, como se fizessem parte de uma matilha. E que viviam obcecados e assombrados – como Fukuyama, Toffler, ou mesmo os mais fantasistas como Fontebrune e o resto de nós – com esse temor infantil do fim da história, do fim dos tempos, do fim da Humanidade. E que esse medo ancestral, os levava a se auto-mutilar, auto-destruir e até alterar celularmente.
Os ponteiros do Haloceno (*6) no relógio de Eon (*7) assinalam meio-dia e pouco no ciclo de vida do nosso planeta. A Humanidade, essa, mal rompe a madrugada.


(texto de JLC, Contacto, 01/08/2007)
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1*- Hamurabi: primeiro rei do império babilónico, 1792-1750 a.C.
2*- Ralph 124C 41+: personagem do séc. XXVII, no romance homónimo de antecipação, editado em 1911, pelo autor norte-americano de origem luxemburguesa, Hugo Gernsback [1884-1967], pai da ficção-científica moderna.
3*- transgénico: (neologismo) geneticamente modificado.
4*- ciborgue: organismo cibernético, meio-homem, meio-robô.
5*- cometa-ómega: vulgarizado pela ficção-científica, grau último de perigo dos cometas; cometa que se atingisse a Terra, a destruiria maciçamente.
6*- Haloceno: da época Neolítica até aos dias de hoje, os últimos 10 a 20 mil anos.
7*- Eon: maior subdivisão do tempo, que se divide em diversas eras geológicas [actualmente vivemos no Eon Fanerozóico, na Era Cenozóica, no Período Quaternário, na Época Holocena].

segunda-feira, 30 de julho de 2007

David Fonseca - Hold Still

Para a G., que eu conheci hoje e que me fez passar um bonito serão na sua doce companhia!

domingo, 29 de julho de 2007

Dos Anjos

Nem mil hordas
de anjos em fúria
agarrados
aos meus braços
hão-de salvar-me
de mim!

(do poema "à prova de bala", publicado neste blog, 27.07.07)

sábado, 28 de julho de 2007

poema de Al Berto

dizem que a paixão o conheceu

dizem que a paixão o conheceu
mas hoje vive escondido nuns óculos escuros
senta-se no estremecer da noite enumera
o que lhe sobejou do adolescente rosto
turvo pela ligeira náusea da velhice

conhece a solidão de quem permanece acordado
quase sempre estendido ao lado do sono
pressente o suave esvoaçar da idade
ergue-se para o espelho
que lhe devolve um sorriso tamanho do medo

dizem que vive na transparência do sonho
à beira-mar envelheceu vagarosamente
sem que nenhuma ternura nenhuma alegria
nunhum ofício cantante
o tenha convencido a permanecer entre os vivos

Al Berto

(com devida vénia ao excelente site de poesia "As Tormentas")

sexta-feira, 27 de julho de 2007

Tento saber

Nuno Guerreiro

à prova de bala

quando fecho os olhos
a dor desaparece
o barulho extingue-se
o mundo cala-se
esqueço o corpo imundo

não vejo o cratera negro nauseabundo que a bala deixou no meu peito
o buraco putrido na nuca por onde me arrancaram o coração
as imagens sórdidas já não me atormentam o cérebro em decomposição
os vis instantes não me rastejam pelas pálpebras como insectos nojentos
o veneno asqueroso já não me estanca o sangue malignamente

estendo-me sobre o lençol na mesa da cozinha
a sangue frio, arrepio a pele, puxo pelas veias,
extraio a peçonha toda que resta nas feridas ainda abertas
pinga asquerosamente sangue aleivoso e pus pérfido no alguidar

sacudo o invúlcro maculado
exponho-o à luz do dia
puxo da agulha de prata
remendo os buracos vácuos
corpo purificado e pronto
para outra

e se eu fechar os olhos
a esta velocidade na autoestrada?
nem mil hordas de anjos em fúria
agarrados aos meus braços
hão-de salvar-me de mim!

Alexandre Weytjens - 270707

segunda-feira, 23 de julho de 2007

maldita ode da tristeza

"Maldita prostituta adornada de falsos oros y turquesas
Eres infinito dolor, asqueante concierto de blasfemias
A nadie le importan sus fétidos alaridos ¡Muérete!
Carga tu lápida, no las exhibas, es solo mala fotografía
¡Aléjate! Peste funesta, ráfaga criminal, emperadora del mal
¡Traidora! ¡Traidora! ¡Traidora!

Márchate de este mundo de ojos cristalinos
¡Aléjate! Vieja sórdida, engendro del cuarto infierno
No deseo ver tu desnudez, lastima tu féretro sobre la espalda
No corrompas con tu crueldad las altas murallas
¡No! No mutiles de quién nada te debe la ultima sonrisa"


("Maldita Ode da Tristeza" - Fanny Jem Wong)

Lili Song

Lili, take another walk out of your fake world
please put all the drugs out of your hand
you'll see that you can breath without not back up
some much stuff you got to understand

for every step in any walk
any town of any thaught
i'll be your guide

for every street of any scene
any place you've never been
i'll be your guide

lili,you know there's still a place for people like us
the same blood runs in every hand
you see its not the wings that makes the angel
just have to move the bats out of your head

for every step in any walk
any town of any thaught
i'll be your guide

for every street of any scene
any place you've never been
i'll be your guide

lili,easy as a kiss we'll find an answer
put all your fears back in the shade
don't become a ghost without no colour
cause you're the best paint life ever made
.
AaRON- U Turn(lili)

domingo, 22 de julho de 2007

hurt

"some days I feel broke inside
But I won't admit
sometimes I just wanna hide
cause it's you I miss
and it's so hard to say goodbye
when it comes to this
would you tell me i was wrong
would you help me understand
are you lookin' down upon me
are you proud of who I am..."


("Hurt". C. Aguilera)

sábado, 21 de julho de 2007

tudo o que tenho de fazer é trocar o nome da gaja deste clip pelo da minha ex-namorada

black hole sun (cadafalso II)

quando a espada te atravessa tão repentinamente, ainda a sentes?
quando o punhal foi tão fundo que tu já não sabes se é dor que desatina sem doer, ainda é golpe?
quando o sangue te escorre das mãos e ainda está quente, ainda é teu?
quando já não ouves o estrondo do tiro e vês o buraco negro no teu peito fumegante, é a altura certa para saberes que deves morrer?
quando a queimada devasta mais uma vez a terra e ela já não é combustível, o que mais há para arder?
quando perdes pé e sabes que o mar te vai encher as goelas e as narinas e as órbitas dos olhos, ainda estás vivo para pensar nisso tudo?
quando o deserto te queima os pulmões com pó, ainda tens sede?
quando passas a voar pelo 10° andar a caminho do solo, ainda sentes as tuas veias a pulsar arrepiadas?
quando te desintegras num só sopro de explosão, para onde vais?
quando o sol fica negro e já não é dia nem é noite, onde estás?
quando todos te dizem que és um monstro, deves continuar a viver?
...
Docilmente, ajoelhas-te perante os teus carrascos,
de olhos bem abertos vês a verdade nos seus,
deitas a cabeça no madeiro,
entregas a nuca nua à justiça,
a multidão em delírio cala-se ofegante,
o céu respira uma, duas vezes,
durante uns breves instantes tens a sensação que consegues ouvir o sol a arder.
De repente já não ouves, não sentes nada.
A mão do anjo veio intervir por ti e paralisou o derradeiro momento?
Já podes levantar os olhos?
Se o teu sangue não escorre à tua volta, é bom sinal?
Quando já não há multidâo, nem gume, nem céu,
e o sol ficou como bréu e já não é dia nem é noite, onde estás?

AGW170107
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Segunda parte do poema postado em 17/01/2007 (e eu que sempre detestei ser clarividente!)

quarta-feira, 18 de julho de 2007

Ministra da Família luxemburguesa admite alterar legislação sobre a adopção

A adopção volta a ser tema polémico no Parlamento. A discussão foi despoletada pela condenação do Estado luxemburguês no Tribunal Europeu dos Direitos do Homem, após o Luxemburgo ter recusado reconhecer a adopção de uma criança peruana por uma mãe luxemburguesa celibatária.

Aquestão da adopção foi uma das que mais apaixonou os debates na última sessão da Câmara dos Deputados, antes da pausa de Verão, a 12 de Julho.

O assunto volta a ser actualidade na sequência da condenação do Estado luxemburguês, num acórdão de 28 de Junho do Tribunal Europeu dos Direitos do Homem (TEDH), que condena o Grão-Ducado por este ter recusado reconhecer a adopção de uma criança peruana com o argumento de que a mãe luxemburguesa não era casada (ver nossa edição de 4 de Julho, pág. 5).

Os debates ficaram ainda mais "empolados" quando os deputados ligaram a questão à da adopção de crianças por casais do mesmo sexo. O assunto surgiu na sequência de o primeiro-ministro, Jean-Claude Juncker (do partido cristão-social), ter declarado, durante o encontro com a imprensa, a 6 de Julho, que não se opunha ao casamento civil para casais homossexuais, embora devesse ainda reflectir quanto à adopção de crianças por parte destes (ver nossa edição de 11 de Julho, pág. 3).

Na sua intervenção no Parlamento, na quinta-feira à tarde, o deputado socialista (LSAP) Marc Angel quis conhecer a posição actual do Governo cristão-social/socialista sobre a questão.

Para Angel, "nem o estado civil nem a orientação sexual deveriam ser critérios em matéria de adopção". Recordou, no entanto, que "há países que reconhecem o casamento homossexual sem terem dado o passo de reconhecer a adopção de crianças por casais homossexuais".

Na sua resposta, o ministro da Justiça, Luc Frieden (CSV), presente aquando do debate parlamentar, começou por afirmar que não se pode dizer que a lei luxemburguesa não respeita os direitos humanos e os direitos da criança. "A lei luxemburguesa, contrariamente ao que foi anunciado na imprensa, não foi posta em causa com a condenação do TEDH", frisou. Frieden chegou mesmo a admitir que uma pessoa celibatária tem as mesmas capacidades para adoptar uma criança que um casal.



OPTAR PELA
"ADOPÇÃO ÚNICA"

Também presente nesse dia, a ministra da Família, Marie-Josée Jacobs (dos cristãos-sociais do CSV), recordou que a legislação luxemburguesa na matéria foi elaborada baseando-se na Convenção sobre os Direitos da Criança e na Convenção de Haia relativa à Protecção das Crianças e à Cooperação em matéria de Adopção Internacional, assegurando ainda que estas são aplicadas nos cinco centros de adopção existentes no país.

Não obstante, a ministra reconhece que é preciso reflectir sobre eventuais alterações a introduzir na lei luxemburguesa. A ministra aventou a possibilidade de o Luxemburgo vir a optar por uma "adopção única", substituindo a actual legislação que prevê dois tipos de adopção (* ver caixilho em anexo).

Frieden , por seu lado, quis recolocar a discussão da adopção por parte de pessoas do mesmo sexo no seu contexto. O primeiro-ministro "pronunciou-se a favor da erradicação da discriminação contra os homossexuais, mas não disse que era a favor da adopção de crianças por casais do mesmo sexo", recordou.

O deputado Xavier Bettel, do Partido Democrático (DP), apresentou uma resolução onde pedia à Câmara dos Deputados que o reconhecimento do casamento civil homossexual fosse discutido no seio das comissões jurídica e da família. Bettel solicitou ainda que o Parlamento propusesse uma solução legal concreta para abrir a possibilidade do casamento civil aos casais homossexuais. Sem dissimular a sua impaciência, Bettel recordou que já aquando da votação da lei sobre o partenariado ("uniões de facto"), em 2004, o Parlamento luxemburguês adiara a discussão sobre o casamento civil entre pessoas do mesmo sexo. O deputado liberal disse não querer que o assunto fique novamente votado às "calendas gregas".

A moção de Bettel foi chumbada por 38 votos contra 22.

A ministra Jacobs deixou, no entanto, entender que a questão da adopção por casais homossexuais será discutida nas duas comissões por ocasião da discussão sobre uma eventual alteração da lei luxemburguesa em matéria de adopção.

Jacobs mostrou-se aberta a discutir a questão da adopção por pessoas solteiras e mesmo pelos casais homossexuais, embora antes de avançar para propostas concretas fosse necessário, disse, um consenso no seio do Governo. "As duas questões serão discutidas. Mas sem cedermos à pressão mediática. Vamos apenas pensar no interesse da criança!", fez questão de frisar.

Numa moção em que apela igualmente à luta constante contra a discriminação dos homossexuais, também o deputado luso-descendente dos Verdes ("Déi Gréng"), Félix Braz, considera que após as declarações de Juncker, "feitas num contexto oficial", o Governo deve assumir as suas responsabilidades e "clarificar, o mais rapidamente possível, a sua posição quanto ao casamento civil homossexual". Braz emitiu, também ele, o desejo de ver a questão discutida nas primeiras sessões da próxima rentrée parlamentar.

Segundo estipula a Constituição luxemburguesa, a rentrée parlamentar efectua-se na segunda terça-feira do mês de Outubro. Este ano, a data retida é dia 9 desse mês. Mais desenvolvimentos depois do Verão.

José Luís Correia (in Contacto, 18.07.07)

quinta-feira, 5 de julho de 2007

Crítica de filme

Documentário "Plein d'Essence", de Geneviève Mersch

É para atestar, se faz favor!

Mais de 200 milhões de litros de combustível vendidos anualmente, 800 mil litros por dia, 24 bombas de abastecimento para camiões, 27 para automóveis, 74 lugares de estacionamento para pesados, 168 para ligeiros, 70 casas de banho e urinóis! Números que fazem da estação de serviço Shell em Berchem (auto-estrada A3), uma das maiores ou mesmo a maior do mundo. Números que impressionam, mas escondem outra(s) realidade(s). Uma estação de serviço por onde passam mais de cinco milhões de clientes por ano (estação Aral incluída), tem certamente uma dimensão humana, apesar do cheiro omnipresente e nauseabundo a carburante, do aspecto industrial, das bombas verticais, da horizontalidade dos veículos longos que a ela afluem 24 horas por dia, 364 dias por ano. E no meio... correm pessoas. Donde vêm, para onde vão, o que as trouxe aqui, a este canto de Luxemburgo, por um curto instante, tão pequeno quanto a rápida e breve incursão na auto-estrada que as leva de fronteira a fronteira?

"Vim comprar tabaco e gasolina, aqui é mais barato! Como se chama o país? Sei lá, só sei que aqui é mais barato!", lança um idoso num francês de pronúncia belga, com sacos de plástico cheios de embalagens de tabaco nas duas mãos.

Foram momentos destes que a realizadora luxemburguesa Geneviève Mersch quis captar no seu documentário "Plein d'essence". Deixou por isso os números astronómicos de lado, reduziu os mastodontes à escala humana e pôs-se a interpelar quem por ali transitava.

Em 26 dias (e noites) de filmagens ao longo de 15 meses falou com dezenas de fronteiriços, automobilistas, camionistas, caravaneiros, excursionistas, veraneantes de todas as nacionalidades, trabalhadores da Aral e da Shell, e viu todas as estações do ano passarem pela estação, chegando até a passar lá um Natal. Uma passagem que constitui um dos momentos mais comoventes do filme. Quem passa um Natal numa bomba de gasolina?

"Como reconhecer um camionista?" foi outra das questões existenciais para as quais a realizadora obteve resposta. Hoje é peremptória: "Os clichés existem, mas por vezes as aparências enganam. Há camionistas com tatuagens e cara de pouco amigos, mas depois são pessoas com quem tive conversas muito interessantes", conta. À realizadora, estes queixam-se das condições de trabalho. "Isto já não é o que era, com as deslocalizações ainda é pior!", resmungam. Não visitam países, vêem estrada e alcatrão, pouco mais. Falam das longas viagens, sempre a sós, longe das famílias, apenas com um gato ou um cão como companheiros. Os que nem isso têm, optam por pósteres de curvilíneas, siliconadas e mais-que-perfeitas manequins marotas em trajes menores para decorar as paredes da cabina do camião. Melhor que nada, sempre servem de companhia.

"É um filme de retratos", diz Mersch, "e não um documentário jornalístico, nem um filme de publicidade para as estações de serviço", faz questão de frisar. A partir de uma ideia que teve há dez anos, recuperada este ano no âmbito do Luxemburgo 2007 - Capital Europeia da Cultura, esta produção com o selo da Samsa Film estreia a 6 de Julho.

José Luís Correia (in Contacto, o4.07.07)

sábado, 12 de maio de 2007

MISSING Madeleine McCann AGED 3-PLEASE FORWARD TO EVERYONE


Uma menina britânica de três anos desapareceu dia 3 de Maio de um complexo turístico na praia da Luz em Lagos, Algarve, enquanto dormia - juntamente com dois irmãos gémeos, de dois anos - e os pais jantavam fora com amigos. Se tiver informações, contacte a Policia da sua zona.

Madeleine, verzweifelt gesucht Die Dreijährige wurde aus einem Hotelzimmer in Portugal entführt

Three year old British girl, Madeleine McCann, disappeared from the resort that her Madeleine McCann 2family was staying in Praia da Luz, Portugal, May 3. Police have initially speculated that she was abducted by a pedophile. Time is of the essence and the clock is running to save this child from a sexual predator. If you have informations, please call the police of your local area.

Une fillette anglaise, Madeleine McCann, de 3 ans, a été kidnappée de sa chambre, dans un hotel de la Praia da Luz, en Algarve (Portugal), le 3 mai, pendant que ses parents dînaient au restaurant. La fillette aurait été vu en Espagne dans une voiture avec deux hommes et une femme. Si vous des informations, contactez la police de votre région.

Una nina britanica Madeleine McCann (3 años) desapareció el 3 Mayo de un complejo turístico de la región del Algarve.

Bimba inglese scomparsa in Portogallo

Drie jaar oud Brits meisje, Madeleine Mccann, verdwenen van een hotel in Algarve, Portugal, Mag 3. Als jullie hebben informaties, gelieve te oproep de politie van uw indigeen gebied.

Trzyletnia Madeleine McCann została porwana z hotelowego łóżka. Rodzicie dziewczynki jedli w tym czasie kolację w pobliskiej restauracji - poinformowała portugalska policja. Brytyjczycy spędzali urlop w nadmorskim kurorcie.

Britský podnikateľ ponúkol milión libier za informáciu, ktorá pomôže pri nájdení trojročného anglického dievčatka, ktoré zmizlo počas rodinnej dovolenky v Portugalsku. Portugalská polícia prerušila prehľadávanie okolia letoviska Algarve, kde Madeleine McCannová zmizla pred viac ako týždňom, a zamerala sa na ďalšie stopy.

Три лет британская девушка, Madeleine Mccann, исчезнула из гостиницы в Algarve, Португалии, мая 3. Если вы имеете информацию, пожалуйста назовите полицию вашей местной области.

ثلاث السنة بريطاني كبيرة في السن البنت, McCann Madeleine, اختفوا من فندق ( في Algarve رجاء دعا الشرطة منطقتك المحلية لو لديك معلومات).

三岁英国的女孩,玛德琳McCann,从Algarve中的一家旅馆消失,葡萄牙,五月3日。如果你有信息,请打电话给你的当地的区域的警察。

영국 3 살의 소녀 (마드렌 McCann )는 Algarve, 포르투갈, 5월 3일 안에 호텔로부터 자취를 감췄다. 만일 당신이 정보를 가지고 있으면, 당신의 지방의 지역의 경찰을 불러 주세요.

בן שלוש שנים, ילדה בריטית, מדלין מככאן, נעלמו ממלון באלגארו, פורטוגל, מאי 3. אם יש לך מידעים, נא להתקשר למשטרה מהתחום המקומי שלך.

Üç tane yıl eski İngiliz kız,, mayıs 3 Portekiz Algarve içindeki bir otelden gözden kayboldu Senin bilgilerin varsa, senin yerel polis alanın çağır.

3歳の英国の少女、マドレーン・マッカン、が5月3日、 Algarve 、ポルトガル、のホテルから姿を消しました。 もしあなたが informations を持っているなら、どうかあなたのローカルなエリアの警察に電話をしてください。

quinta-feira, 10 de maio de 2007

Les Bienveillantes - Jonathan Littel

Et pourtant, Emilie Besse (sur iTélé en Novembre 2006), Jonathan a gagné le Prix Goncourt!

quarta-feira, 9 de maio de 2007

Luxemburgo, país-fantasma depois das 18h?

À noite, nem todos os gatos são pardos!

É muito comum ouvir-se dizer que não há vida nocturna nem verdadeiro pulsar cultural no Grão-Ducado. Mas como quase todas as ideias preconcebidas, a constatação parte de uma leitura demasiado superficial da realidade ou da falta de um bom guia.

Não se pode comparar a vida artística e nocturna da cidade do Luxemburgo à de outras capitais europeias, como Paris, Londres ou mesmo Bruxelas, mas, condicionado à dimensão geográfica, o Luxemburgo vai fazendo esforços proporcionais.

A capital europeia da cultura, título que o Luxemburgo recebeu pela primeira vez em 1995, ajudou muito para esse despertar da oferta cultural e nocturna. Em 2007, a cidade volta a assumir esse papel, alargando-o à Grande Região, querendo-se agora sobretudo desmistificador do rumor de que o Grão-Ducado é um deserto cultural, uma praça financeira com torres de vidro e betão, que morre depois das 18h, um país-fantasma.

Mas todo o borbulhar de ideias, eventos culturais, novos artistas, espaços de lazer e vida nocturna só existe verdadeiramente quando é devidamente divulgado.

OS PIONEIROS

Foi a pensar nisso que nasceu em 1997 um projecto inovador, a revista "Nightlife.lu", das "Mike Koedinger Editions" (mke), e, na mesma senda, em 2000, o site "alex.lu" (ainda hoje activo em www.alex.lu ), que começaram por fazer as primeiras foto-reportagens da vida nocturna luxemburguesa. Enquanto o portal do Alex, graças a uma equipa dinâmica e ao boca-a-boca, se tornava o melhor retrato da "noitadas" no Grão-Ducado, a revista "Nightlife.lu" passou a ser "o" guia obrigatório da noite para o público jovem.

Foi nesta onda e num formato mais abrangente do que o alex.lu que o site bomdia.lu, inaugurado a 10 de Junho de 2001, veio responder a essa necessidade de divulgação na internet da vida nocturna, espectáculos, bailes, eventos e cultura no seio da comunidade portuguesa.

Em Outubro de 2001, também a televisão TangoTV (depois TTV) se lançou na divulgação da "noite" com o programa "Clubbing", apresentado pela carismática Jacky Monteiro (hoje na rádio DNR), emissão que durou até 2004. Um ano mais tarde, é a vez de o programa de televisão "WonnerBar", do não menos famoso Dan Vinkowski, se interessar pelos eventos da vida nocturna. O programa estreou no canal dok em 2005, foi transferido alguns meses mais tarde para a TTV, onde o último programa foi difundido no Verão de 2006.

Mas já em 1999, na sua edição de Dezembro, a "Nighlife.lu" revelava que o pioneiro nestas andanças teria sido o enigmático "X-Non-Magazine", de Gino Ricca, um fanzine que existia desde 1984, distribuído em círculo restrito, "underground" e com periodicidade irregular.

Com o passar do tempo, a "Nightlife.lu" evoluiu para uma revista de corpo inteiro sobre tendências e actualidades, a "Nico" (em 2003), dotando-se de um grafismo arrojado, comparável ao que de melhor se faz no estrangeiro. Com a transformação em Novembro último da "Nico", de publicação mensal em semestral (a última edição saiu em Abril de 2007), a equipa de Mike Koedinger passou a ocupar-se da revista mensal "Rendez-Vous", editada pela autarquia da cidade do Luxemburgo.

Entretanto, já outros estão a tentar ocupar o lugar deixado vago no mundo da divulgação de eventos ligados à cultura, arte, moda e vida nocturna no Grão-Ducado.

Novos guias
dA CULTURA E DA NOITE

Exibindo como subtítulo "agenda cultural do Luxemburgo e da Grande Região", a última em data apareceu em Novembro de 2006 e responde pelo nome de "Artscene" (nada a ver com o bar do mesmo nome!). Publicada em língua francesa, com edição mensal e preço de capa de dois euros, a nova revista tem formato de bolso (A5). Vocacionada prioritariamente para a divulgação das artes cénicas, a revista não se deixa acantonar em rótulos e alarga-se à vida artística no Luxemburgo num plano mais geral. Assim, além de tratar dos concertos, peças de teatro, ópera, dança, café-teatro, filmes e exposições em exibição no país, inclui ainda uma secção dedicada às "noitadas" e às melhores moradas de restaurantes, bares e discotecas.

Editada pela edições "Euro-Editions", a "Artscene" tem uma tiragem de 10 mil exemplares.

Recorde-se que esta mesma editora tentara já em 2004 lançar uma revista de lifestyle . Contando com um responsável português à frente do projecto (Paulo Simões) e o sugestivo título de "Spoon" (colher), a revista (também em formato A5) terminou após poucas "colheradas" (uma dezena de edições!).

Uma outra aposta editorial , que foi dada a lume em Junho de 2006, é um jornal em língua inglesa que se dirige preferencialmente aos incondicionais da música. Com o irreverente título de "Up Front", o mensário pretende ser "o guia de orientação musical para o Luxemburgo e a Grande Região", como anuncia em primeira página.

Publicado pela "Clearbay Ltd" e distribuído gratuitamente, o jornal divide-se em várias secções que vão muito para além da música e respondem assim à procura de informação cultural da vasta comunidade anglófona: música e vida nocturna; arte e cultura; entrevista e palco; mente, corpo e alma; livros e filmes; 18-24; crianças; e desporto.

Existe ainda a revista mensal "Nightlife-Mag", que vai já na sua 22a edição e que aborda temas como novidades da tecnologia, automóveis, moda, cinema, desportos radicais, mas também notícias da música, clubbing e bares no Luxemburgo. Editado pela "Nightlife Belux", a revista tem formato A4 e é a edição luxemburguesa da revista francesa "Nightlife Metz", com assuntos e temas adaptados ao Luxemburgo.

Ponto comum entre todas estas publicações: podem ser encontradas, quase sempre gratuitamente, nos teatros, museus, galerias de arte, salas de espectáculo, bem como em pontos comerciais habituais onde param os jovens, desde salões de cabeleireiros na moda, a lojas de roupa, cafés, bares ou discotecas.

Na televisão, as emissões de Jacky Monteiro e Dan Vinkowski esperam um digno sucessor.

Na internet, portais sobre a "noite" como luxembourgnightlife.com party.lu ou winter-clubbing.lu , entre outros, encontram-se mais ou menos activos.

Até os representantes de uma cultura mais tradicional perceberam esta tendência e lançaram no Luxemburgo a Noite dos Museus em 2001, que tem desde então granjeado um sucesso crescente. O recém-chegado Museu de Arte Moderna (Mudam), no Kirchberg, resolveu mesmo "semanalizar" esse hábito e propor visitas nocturnas gratuitas às quartas-feiras, entre as 18 e as 20h.

Balanço da nossa deambulação nocturna: a vida cultural e artística está a florescer no Luxemburgo, foram feitas apostas nesse sentido com a edificação de novos "templos" – Sala Filarmónica, Centro Cultural-Abadia de Neumünster, Museu de Arte Moderna, Rockhal, Rotondes, etc. –, abriram novas galerias de arte, os bares e discotecas descentralizaram-se e multiplicam as "noites brancas", diversificam-se, apostam em música ao vivo, concertos, showcases , o bairro do Grund está a tornar-se o refúgio predilecto dos artistas, os eventos e happenings sucedem-se, a fauna nocturna está cada vez mais animada. É só preciso saber encontrar o "mapa" certo para aquilo que se procura!

José Luís Correia (in Contacto, 09.05.07)

terça-feira, 8 de maio de 2007

Radioscopia prévia da Era Sarkozy 2007-2012

Como vai evoluir a França até 2012, durante o Sarkozismo? Talvez o pequeno estadista apesar da sua estatura franzina incarne, com a sua personalidade pretensiosa, o salvador da nação para muitos franceses, talvez seja a pessoa certa para redinamizar a economia, revalorizar o trabalho, recentrar o país nos eixos, limpar a escumalha, voltar a dar orgulho à nação.
Permitam-me que duvide!

Sarko/Bush – as duas nádegas de um mesmo cu

Já ouvi este discurso populista e a descair perigosamente para o nacionalismo antes! Também plebiscitado democraticamente. Em Fevereiro de 1933 e em Novembro de 2000! O primeiro com as consequências que se conhecem. O segundo, actualmente, em plena fase de esfusiante expansão.
Se nos detivermos apenas no segundo exemplo, o que mudou desde o “golpe de estado” de Bush em 2000 (considero que mesmo se foi eleito e não re-eleito em 2004, ninguém pode ser candidato a um posto que ocupou ilegitimamente!)?

- Duas guerras (Afeganistão e Iraque), três (Israel-Líbano), se considerarmos que Telavive se sentiu suficientemente caucionado e protegido pelos EUA (a patrulhar na zona) para desencadear, no Verão de 2006, uma guerra em cima daquele barril de pólvora que é o Médio Oriente. Teme-se uma quarta guerra. Com o Irão. Espera-se que não aconteça uma nova invasão “à baía dos porcos”, e que o “homem do bretzel” se consiga controlar até às eleições presidenciais norte-americanas de 4 de Novembro de 2008.

- Dois novos muros da vergonha: um a Norte de Israel, logo imitado (ou terá sido o contrário?) pelo muro na fronteira sul dos EUA com o México. Temo que estes belos exemplos de intolerância e ultrasecuritarismo não serão certamente fomentadores de paz, muito pelo contrário.

- Uma 2ª Guerra Fria? – Os EUA insistem em montar na Polónia e na República Checa um escudo anti-mísseis, argumentando querer proteger-a si a aos países-amigos, contra a ameaça nuclear iraniana. A Rússia não quer ouvir falar em misseis americanos tão perto de Moscovo e avisou que se Washington não voltar atrás nesta decisão, retira-se do tratado de não-proliferação de armas nucleares. Esperam-nos umaa nova escalada nuclear?

- Intensificação do radicalismo islâmico que se considera o único contra-peso à potência mundial dos EUA

E Sarkozy subscreve toda esta linha política de Bush, como bem o fez perceber no seu discurso após o anunciar do resultado das eleições de domingo. Deu o sinal a Washington que a “Era Chirac” terminou. Bush pode contar com um novo aliado deste lado do Atlântico. E em demonstrações de força e deslizes políticos a cópia não fica nada a dever ao original.
Bush foi protagonista do maior número (131) de execuções na cadeira eléctrica ou por injeção letal enquanto foi governador (1985-2000) do Texas (o estado-campeão nas execuções), tendo apenas diferido um caso em 15 anos (em plena pré-campanha eleitoral para as presidenciais de 2000).
Durante a sua passagem no Ministério do Interior, Sarkozy incentivou as forças policiais a serem mais “firmes e convincentes” na ordem pública, com as consequências e derrapagens que se conhecem. E a recorrer sem pejo às administrações e serviços pagos pelo erário público para uso pessoal, como o episódio em que pediu análises de ADN para apanhar o larápio que furtara a lambreta ao filho. Ou a influência subreptícia de que usou para que a imprensa regional e o habitualmente independente Canal + não promovessem o debate Royal-Bayrou, depois da primeira volta das presidenciais francesas.

O pequeno príncipe


Apesar de se dizer próximo do francês médio do povo, tudo na sua atitude, ascendência e descendência indicam exactamente o contrário. Além de neto e bisneto de governadores de província húngaros de família nobre (lado paterno) e de judeus gregos de Salónica (do lado materno), Sarkozy cresceu e foi criado em Neuilly-sur-Seine, os arredores chiques parisienses. Um dos irmãos é um patrão poderoso do sector têxtil em França e ex-patrão do MEDEF (organização patronal mais forte de França) e dois dos seus meios-irmãos são banqueiros influentes em Nova Iorque.
Ninguém escolhe a família, admito, mas os gostos burgueses estão bem enraizados no “petit Nicolas”. Depois de anunciada a sua vitória nas presidenciais de domingo, passou a noite, com a esposa, no Hotel Fouquet’s (uma noite custa entre 1.500 e 2.590 euros) e na segunda-feira partiu para umas mini-férias milionárias a bordo de um iate ao largo de Malta, para “descansar da campanha eleitoral”. Um iate de um amigo seu, magnata dos media. Não só estas "férias" deixam um sabor amargo ao operário que votou para ele e que ganha, esse, pouco mais do que o salário mínimo francês (+- 1200 euros), como revela uma densa teia de relações de clientela entre o futuro presidente e os maiores empresários de França.
Quando, nas decisões, o prato da balança tiver que pesar entre trabalhadores e patronato, não há dúvidas para que lado Sarkozy fará força. E aí servirá o velho argumento ultraliberalista que tudo é feito para relançar a economia, mesmo que haja "baixas" pelo caminho. "Tudo pela França, nada contra os franceses", onde é que já ouvi algo parecido?

O clash em Maio de 2008?

A mim, assustam-me os antecedentes de Sarkozy e como este começou o seu reino, ainda antes de ser entronizado, o que deverá acontecer dia 16 de Maio. Ainda mais depois de este ter declarado na Radio France Inter, a 29 de Abril - dias antes da segunda ida às urnas, o que mostra que Sarkozy estava certo de vencer e já não tinha nada a ocultar – que repudiava os “herdeiros do Maio de 68”, que acusou de terem destruído “os valores e a hierarquia”.
O que me faz prognosticar que mesmo que o novo presidente engane a plebe com “pão e circo”, egalanando-se nos primeiros meses de mandato, podendo mesmo vir a vencer a eleições legislativas de Junho, o “clash” com a França-país real (ou “la France d’en bas”, como dizem os franceses) se dará o mais tardar em Maio de 2008. É que as festividades do 40° aniversário prometem ser, no mínimo, controversas. E o povo é quem mais ordena!
Em França, sempre que a geração nascida do “baby-boom” (a maioria, portanto!) se convulsionou, a sociedade revolucionou-se: em Maio de 1968, com estudantes e jovens operários; e nos anos 80, com as mulheres a reivindicarem e a conquistarem o mundo do trabalho monopolizado até então pelos homens.
Hoje, essa geração está a chegar ao “papy-boom”. Foi essa geração que, emburguesada e desabusada dos velhos ideais, se chegou à direita e elegeu Sarkozy. Mas acordará a tempo para dar um novo safanão na França, se Sarkozy derrapar? Ou terão que ser os filhos da geração de Maio de 68 a pegar no testemunho, como mostraram que o sabem fazer quando foi das manifestações anti CPE*?
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*CPE, Contrato Primeiro Emprego - projecto-lei proposto pelo primeiro-ministro Dominique de Villepin (o mesmo governo de que fazia parte Sarkozy), em 2006, e que precarizava ainda mais o emprego jovem. O CPE destinava-se a jovens com menos de 26 anos e como o seu nome não indica, podia ser aplicado mesmo que não se tratasse do primeiro emprego do jovem. O CPE previa que depois de um período à experência, o patrão podia durante um período de dois anos despedir o jovem sem invocar quaisquer razões. Se nesse período o jovem se despedisse não poderia beneficiar do fundo de desemprego.

Caricaturas: "O amigo dos americanos", desenho de Bleibel, publicado no "Al Mustaqbal", Beirute; "Moi Napo, toi Jeanne", desenho de Pismestrovic, in site do "Courrier International".

quinta-feira, 3 de maio de 2007

perdido nos meandros da literatura e das viagens

As razões da minha ausência: literatura, viagens e a Primavera

O romance "Les Bienveillantes" de Jonathan Littell, Prémio Goncourt 2006 e tijolo de 900 páginas que levei seis meses a ler. Brevemente, deixarei as minhas imopressões sobre esta obra-prima da literatura mundial.



"Kölner Dom", catedral gótica (séc. XII/XIII) de Colónia

quarta-feira, 2 de maio de 2007

Luxemburgueses discutem substituição da bandeira tricolor pelo estandarte com leão vermelho

Erupção cutânea ou sedativo?

Apesar da forte ades ão ao leão vermelho por parte da população autóctone e até da comunidade portuguesa, muitos são ainda aqueles que, nacionais ou não, se mostram dubitativos em relação à alteração de bandeira. Por consi derarem que o brasão e a bandeira devem ser dois emblemas bem distintos; ou por não desejarem que o país seja o único da UE a arvorar um brasão medieval como bandeira nacional, numa é poca em que se constrói a Europa das Nações.


Enquanto o primeiro-ministro luxemburguês qualifica a proposta de "simpática", não a considerando, no entanto, uma questão fundamental nem uma prioridade para o país, na recente Conferência Nacional para Estrangeiros alguns participantes mostraram preocupação, temendo que este "entusiasmo” derive de nacional para "nacionalista”.

Pareceu-me sobretudo intempestivo o facto de a proposta de Michel Wolter ter surgido apenas quatro meses depois d a exagerada "problemática das bandeiras", que tanta tinta fez correr nos jornais durante o últim o Campeonato Mundial de Futebol (Junho/Julho de 2006), e exactamente um mês após aapresentação do projecto-lei da dupla nacionalidade de Luc Frieden (4 de Setembro de 2006). Preocupa-me que a iniciativa, sob o argumento de um desejo de diferenciação com a bandeira holandesa, seja um a erupção cutânea de afirmação nacional. A não ser que se trate de uma acção concertada entre líderes do partido no poder para tranquilizar os autóctones de que, por mais que muitos temam que a lei de Frieden seja uma forma de "dar ao desbarato” a nacionalidade luxemburguesa, a nação continuará inteira e íntegra.

José Luís Correia (in Contacto, 02.05.07)