sebenta de anotações esparsas, pensamentos ociosos, reflexões cadentes, poemas difusos, introspecções de uma filosofia mais ou menos opaca dos meus dias (ou + reminiscências melómanas, translúcidas, intra e extra-sensoriais, erógenas, esquizofrénicas ou obsessivas dos meus dias)
-
cahier de notes éparses, pensées oisives, réflexions filantes, poèmes diffus, introspections d'une philosophie plus ou moins opaque de mes journées (ou + de réminiscences mélomanes, translucides, intra-sensorielles et extra-sensorielles, érogènes, schizophrènes ou obsessionnelles de mes journées)

quinta-feira, 20 de outubro de 2005

Duas vozes cantam duas cidades: O "fado" de Nápoles e a canção de Lisboa

Consiglia Licciardi e Nuno da Câmara Pereira Foto: M. Dias
Por iniciativa do Instituto Camões e do Istituto Italiano de Cultura, realizou-se, no passado sábado, no Teatro Municipal de Esch/Alzette, um serão dedicado ao Fado e à canção napolitana. Os "actores principais" deste diálogo entre o Fado e a Canção de Nápoles, foram o fadista Nuno da Câmara Pereira e a cantora Consiglia Licciardi, acompanhados pelos músicos Fernando Silva (guitarra portuguesa), Pedro Amendoeira (guitarra portuguesa), Carlos Velez (viola), Fernando Calado (viola), Giuseppe Licciardi (guitarra), Gianni Dell'Aversana (guitarra) e Michele Di Martino (mandolina).

Duas vozes, sete guitarras 

O público deixou-se encantar e rendeu-se, por completo, às vozes dos dois artistas, que interpretaram, cada um, canções das suas cidades respectivas sobre o tempo, a noite, o sentimento, o jardim, o bairro, o passado, o abandono, a tradição, a distância e o amor. Nuno da Câmara Pereira de um lado do palco, Consiglia Licciardi, do outro.

Cada emoção, cada lugar cantado à maneira de Lisboa ou de Napóles, ora na voz bem nossa conhecida de Nuno, ora na voz potentissima de Cristalina de Consiglia. Duas vozes, mas não ao desafio. Antes, numa mútua sedução, como uma serenata consentida.

Muito aplaudido pelo público foram sobretudo os desempenhos dos dois artistas, quando estes se exprimiam na Língua do outro: Consiglia não hesitou mesmo em usar o xaile preto, tipicamente português, para acompanhar Nuno da Câmara Pereira em alguns fados.

Um dos momentos altos do espectáculo foi um dueto da célebre canção italiana "Ó Sole Mio", cantado em Italiano e Português. Também muito apreciado, sobretudo pelo público português, foram alguns fados, que Nuno da Câmara Pereira não pode deixar de cantar, mesmo se não faziam parte do programa, prolongando assim, por mais meia-hora, o espectáculo.

Outro momento que conquistou o público, composto essencialmente por portugueses e italianos, embora houvesse também muitos luxemburgueses, foi quando os sete guitarristas em palco (três italianos e 4 portugueses) interpretaram, num majestoso tema instrumental, o "Interlúdio luso-partenopeu", sob forma de diálogo entre a guitarra portuguesa e a mandolina.

Depois do espectáculo, o CONTACTO falou com o fadista português que se declarou muito contente por estar de novo no Luxemburgo, e que aprecia muito a maneira como é recebido pela comunidade portuguesa aqui radicada.

Um projecto com quatro anos 

Nuno da Câmara Pereira disse-nos como tinha nascido este projecto e a digressão que têm feito pela Europa e Bacia mediterrância.

"Há uns quatro anos, encontrei a Consiglia num Festival de Música Mediterrânica, na ilha de Malta. Eu estava a representar Portugal com o Fado e a Consiglia a Itália, com a Canção napolitana. Sentimos a perfeita sintonia entre as duas canções e daí surgiu a ideia de cantar em dueto. Ambas as canções são bastante homogéneas, nostálgicas, mediterrânicas - a cultura portuguesa, tem, aliás, muito mais de mediterrânico do que possamos imaginar - e há muitos outros pontos comuns entre as duas cidades, Nápoles e Lisboa, e entre os dois povos."

"Já levámos este espectáculo ao Teatro de la Valleta, a Malta, à Sícilia, a Florença, a Nápoles, e a Tunes (Tunísia)", disse-nos.

Nuno da Câmara Pereira confiou-nos que foi um pouco difícil aprender a cantar em napolitano (diferente da língua italiana). Os dois artistas estão também a pensar imortalizar este espectáculo único num álbum. Para já, há a vontade de multiplicarem os concertos em Portugal e por toda a Europa.

O próximo local, na sua agenda, é o Funchal, onde estarão já esta noite (uma semana depois do Luxemburgo), num espectáculo transmitido em directo pela RTP Madeira. Depois, no fim do mês de Outubro, estarão na Argentina, no primeiro concerto do que será a sua digressão na América Latina, no próximo ano.

 "Uma experiência extraordinária" 

Consiglia Licciardi considera este projecto uma "experiência extraordinária", que o Fado de Lisboa e a Canção napolitana "são duas canções que falam de cidades à beira-mar, que falam dos mesmos sentimentos, da nostalgia, do amor".

Disse-nos que tinha sido muito difícil aprender a cantar em Português e confiou-nos que estava muito ansiosa e desejosa de actuar na Madeira, já que este será o seu primeiro espectáculo em Portugal. Confessou-nos que vai ser um momento forte para si, "como foi, há dois anos, para o Nuno, a primeira vez que ele cantou em Nápoles". Consiglia espera também que o espectáculo seja registado num disco,logo que uma Editora manifeste interresse. Nuno da Câmara Pereira tem novo disco, sem fado

Quanto a projectos a solo, Nuno da Câmara Pereira revelou, em primeira mão ao CONTACTO, que estava prestes a sair, nos próximos dias, um novo álbum seu, mas que não contemplava o Fado. "Este álbum chama-se 'A última noite', é um disco com música de sedução, música de dança em Castelhano e Português, música romântica, "slows", um 'fado dançável', onde contei com a participação de Rui Veloso, dos Tetvocal, do Jorge Fernando, da cubana Lucrécia, da Rosana (Ilhas Canárias), da espanhola Yolanda e até do guitarrista dos Pink Floyd, Snowy White", revelou-nos o fadista. "Já que há tantos cantores da canção ligeira que cantam Fado, porque não fazer o contrário, um fadista cantar música ligeira?", acrescentou.

José Luís Correia
in CONTACTO, 20/10/2000

segunda-feira, 26 de setembro de 2005

Serviço Voluntário Europeu: "Uma experiência única"

Carla Sofia Sousa Miranda em entrevista com o nosso redactor José Luís Correia 
Foto: Tessy Hansen 

Carla Sofia Sousa Miranda tem 22 anos, mora no Bairro da Ameixoeira, em Lisboa, e esteve durante dez meses a fazer o "Serviço Voluntário Europeu" (SVE) no Luxemburgo, no seio da Confederação da Comunidade Portuguesa do Luxemburgo (CCPL).

É formada em Estudos Europeus pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Antes de fazer o programa SVE já fizera o programa "Leonardo da Vinci" em 1998, ficando interessada pelo SVE desde essa altura, mas só se viria a decidir a seguir este programa depois de terminado o curso.

Porquê a CCPL? Carla diz ter-se candidatado a vários projectos do SVE para a França, Inglaterra e Luxemburgo. A motivação das suas escolhas fizeram-se pelo tema do projecto, mas também pela língua do país que a iria acolher. Estabeleceu contactos com outros projectos no Luxemburgo, mas optou pelo da CCPL.

"A maior parte dos outros projectos neste país tinham um âmbito mais social e cultural, com jovens e crianças das 'Maison de Jeunes' e 'Foyers de Jour'. Eu preferi a CCPL porque, além de poder vir a trabalhar com jovens, o projecto era mais abrangente e não se resumia apenas a isso", explica.

A decisão também foi influenciada pelo seu currículo académico. "Este projecto enquadrava-se melhor nos meus projectos futuros e no curso que eu tinha feito. Formei-me em Estudos Europeus, onde abordámos, inclusive, a emigração portuguesa no Mundo. Eu tinha também curiosidade em conhecer essa realidade", conta-nos.

Um país de várias comunidades 

O primeiro contacto com a comunidade portuguesa no Grão-Ducado correspondeu positivamente às suas expectativas.

"O que estudei em termos teóricos adapta-se perfeitamente ao Luxemburgo, embora na prática as coisas se revelassem diferentes. Os portugueses neste país tem características bem específicas e são um caso completamente à parte do resto da emigração portuguesa. Nunca imaginei vir encontrar uma comunidade tão fechada sobre si própria. Pensava que existia uma maior homogeneidade entre a comunidade portuguesa e a sociedade luxemburguesa. O Luxemburgo é um país de várias comunidades, de várias sociedades e é pena que assim seja, porque perde muito!"

"Mas o balanço do estágio é positivo", afiança, "foi bom trabalhar com a comunidade portuguesa, não conhecê-la apenas na teoria, mas saber quais são as suas necessidades, problemas e lutas".

Em termos culturais, profissionais e até pessoais revela-nos que sente que cresceu e evoluiu.

"Este estágio permitiu-me ter as primeiras experiências com o mundo do trabalho. Como se trata de um serviço de voluntariado não tinha um trabalho rígido, tinha flexibilidade horária. Como a CCPL é uma associação onde só colaboram voluntários, por vezes senti que pesavam demasiadas responsabilidades sobre mim, mas, simultaneamente, sentia que me atribuíam crédito para poder trabalhar livremente; que o meu trabalho era útil e que as pessoas confiavam em mim. Graças a isso, hoje tenho mais certezas sobre o que quero fazer, sei o que sei fazer melhor e as formas como gosto de trabalhar. Aprende-se muita coisa a viver num país do centro da Europa, tão parecido com a Alemanha, onde as pessoas são mais frias que em Portugal, mas mais metódicas e rigorosas. Os portugueses tendem a ser mais desorganizados, mas, face a um problema são mais inventivos e improvisam".

Carla admite que nem todos os SVE são como este, mas acredita que constituem sempre "uma experiência única". "É sempre positivo deixar o país, conhecer outras coisas, alargar horizontes", defende.

Segundo Carla, em Portugal uma experiência como estas, no estrangeiro, é considerada uma mais-valia no mercado do trabalho. E ficou tão entusiasmada que, entretanto, conseguiu convencer mais dois jovens do seu curso a trabalharem, este ano, para o projecto da CCPL, integrados no SVE.

Os dois jovens, Filipe Santos e Miriam Mateus já chegaram ao Luxemburgo, onde deverão permanecer até Julho de 2004.

Quanto à Carla, e depois deste projecto, procura algo que se enquadre no curso que fez, seja no âmbito dos assuntos europeus ou no do património e gestão cultural, em Portugal ou no estrangeiro, equacionando, inclusive, voltar para o Luxemburgo ou ir viver para França. Para mais informações sobre o SVE pode consultar, na net o site www.injep.fr/prog/SVE/jeunes.html ou a Agence National luxembourgeoise du Programme Jeunesse, tel. 4786477 (Myriam Putzeys).

José Luís Correia
in CONTACTO, 26/09/2003

sábado, 3 de setembro de 2005

Que lei, para quem? Touros de morte em Barrancos: contra!

Quando uma aldeia inteira apela à tradição para legitimar as práticas mais cruéis e sanguinolentas, pergunto-me afinal em que século estou?!

Esta manhã devo ter acordado na Idade Média ou numa época ainda mais recuada, em que se faziam ainda sacrifícios de animais de oferenda aos deuses. Afinal o homem evoluiu mas a sua bestialidade ficou?

É que esta manhã, fiquei de tal maneira enjoado e enojado que perdi a fome para o resto do dia, ao ler nos jornais e na televisão que a aldeia raiana de Barrancos continua a fincar o pé como um "gaiato teimoso e embirrento", contra todo o país e todas as leis se for preciso, e vai mesmo avançar, novamente, apesar das decisões dos tribunais, com mais uma Corrida de Touros de morte, durante as festas locais dedicadas a Nossa Senhora da Conceição.

Conhecendo bem tudo o que gira em torno da festa brava, por minha mãe ter durante muito tempo servido na casa de uma grande família de toureiros alentejanos, fui percebendo o orgulho alentejano, o gosto pelos cavalos, o respeito pelos touros. Respeito, é esse o sentimento que o toureiro tem pelo touro quando o enfrenta na arena. Depende da pujança e da "raça" do touro que a sua lide seja um espectáculo ou um "flop".

Ao contrário do que muita gente pensa, na "tourada à portuguesa", o touro não é morto ao sair da praça: primeiro retiram-lhe as farpas e é de imediato tratado. Muitos touros voltam às suas ganadarias e aos seus montados, onde poderão ser escolhidos para voltarem a ser toureados; outros são guardados pois a sua estirpe e qualidades de toureio exigem que ele perpetue a sua "raça", multiplicando os novilhos.

O que está aqui em causa, nesta discussão, é a morte gratuita de um animal, para fins puramente de diversão popular. O que nos termos da nossa sociedade dita civilizada é uma aversão, enquanto contrariedade, já que agimos comos animais e não como seres civilizados.

Não estou aqui para defender a tourada à portuguesa, cuja tradição é não matar os touros. Quero é manifestar o meu repúdio à morte gratuita, imputada a um animal, para puro delírio dos homens. Também a tourada à portuguesa tem o seu grau de crueldade. Por isso, sou, hoje, contra qualquer tipo de tourada.

Mas, a haver tourada, a portuguesa ainda pode ser considerada a mais equitável e digna, em relação à espanhola. Na portuguesa, há o toureiro que espicaça o touro de forma a instigá-lo a mostrar a sua fúria e "raça", e há também a figura do forcado que enfrenta o touro de mãos nuas, face a face. Aqui a luta sempre é mais equitável.

Já na tourada à espanhola o touro é picado pelos "picadores" de forma a ficar enfraquecido para que a tarefa do "matador" seja facilitada. Também aqui, o homem enfrenta o touro face a face, mas acaba por matá-lo.

É a superioridade do homem sobre o animal. Não haverá outras formas menos cruéis de exortar a nossa condição de seres "supostamente" superiores? Mais do que estas considerações todas, e sejamos contra ou a favor, há uma lei que fica por cumprir e à qual, um grupo de pessoas, quer fazer ouvidos moucos. A lei é para todos, e não há excepções, é o que nos ensinam.

A tradição não pode ser desculpa para excepções, e para que se continuem a perpetuar acções como estas, que em nada dignificam o ser humano e, neste caso preciso, Portugal e os portugueses. E se algum barranquenho argumentar que mais valia ser espanhol, eu respondo: com portugueses assim, quem precisa de espanhóis?

José Luís Correia 
(in jornal CONTACTO, 03/09/1999)

quarta-feira, 31 de agosto de 2005

Editorial: Portugal no divã

Portugal, "o país dos tristes", escrevia há dias Filipe Rodrigues da Silva, na sua crónica do "Diário Digital", apoiando-se em resultados do Instituto Alemão de Estudo do Trabalho, segundo o qual os portugueses são os cidadãos mais deprimidos de toda a União Europeia dos 15.

E a verificação faz-se no terreno! Em Portugal, quando saímos à rua, só se veêm rostos descompostos, testas franzidas, olhares alheados, pestanas sorumbáticas, ombros descaídos, corpos à deriva. É a crise ou o sermos tristes é uma característica idiossincrática portuguesa?

Já não me lembro se era numa história do famoso gaulês de capacete de asas aladas do Uderzo e do Goscinny que diziam que os celtiberos (leia-se espanhóis) eram esfuziantes, com o seu sapateado de talão forte (futuro flamenco), enquanto os lusitanos do alto alcantil já lamuriavam o seu fado...

Sempre fomos assim ou têm sido os sucessivos e incompetentes governos que afundaram a economia e a moral dos portugueses?

Neste momento somos um país de velhos, que se deixam ficar sentados a ver girar o Mundo, enquanto o quintal arde. Absortos em ontens gloriosos, coçando em êxtase o bigode anacrónico, envergando o pijama de império já roto no traseiro flácido. Só trocamos as ceroulas de flanela pelos calções demasiado curtos e deslavados do clube bairrista.

Regressámos à meninice. Em Portugal não há adultos. Isso obrigaria a aceitar responsabilidades e a prever o futuro, ou seja, governar. Tanto ao nível estatal como individual. O nosso país é um "desgoverno", gangrena que mina tanto a sociedade civil como a classe política, que a imita e reproduz. Ou será o contrário?

Governar é uma disciplina demasiado obscura, complicada e carece do imediatismo que lhe exigem as mentes obtusas. O Passado e a futebolística - esta última, ciência nacional por excelência - são as únicas matérias nobres que merecem palestras públicas mediáticas que resultam em acesas discussões e vivas polémicas, enquanto o país se desinteressa de si mesmo.

Que mais estimula o país? Os assuntos abaixo da cintura ou de dor de chifre do jet-set, por ecrã interposto ou nas fotos em papier glacé. E as inadiáveis idas à praia ao fim-de-semana - único lazer ainda gratuito -, e à nova loja do incontornável e atractivo centro comercial.

O país está reduzido a cinzas, mas já não se comove. Esmera-se no olvido colectivo. Além das nuvens de fumo negro que lhe toldam o horizonte, num espantoso exercício anti-mnemónico, faz delete ao emprego precário, às rendas em atraso, aos impostos que incham, ao ordenado nunca garantido, às facturas por pagar, ao débito que cresce no cartão de crédito, à frustração, à depressão e vai vivendo a sua própria "vidinha".

Na apatia geral alastra a prática nacional do "salve-se quem puder, que eu já estou safo", o egotismo, o egoísmo, o deixa-andar, o desleixe português, o adiamento constante do essencial.

Só assim se explica que:
a) continuemos a não investir suficientemente na Educação, única semente capaz de germinar um Futuro verdadeiramente prometedor;
b) a crise se arraste sem luz visível ao fundo do túnel, sem se aplicarem medidas eficientes, enquanto muitos, preferindo esquecer a lição socrática, voltam a nutrir no seu sebastianismo mórbido esperanças em presidenciais messiánicas;
c) tenhamos reagido tão tarde para apelar à ajuda internacional no combate aos incêndios, gastando rios de dinheiro em submarinos para combater inimigos-fantasma em vez de investirmos em meios aéreos para apagar os fogos, em muitos dos casos, postos.

Paradoxalmente, continuamos a esbanjar o "ouro azul" para que a relva continue a crescer bem verde nos hotéis dos turistas e a meter água nas decisões políticas, quando esta seria bem mais necessária nas matas que ardem.

José Luís Correia 
in CONTACTO 31/08/2005

terça-feira, 23 de agosto de 2005

"Déierschutzliga" - a Liga luxemburguesa Protectora dos Animais

José Luís Correia à conversa com Sylvie Mousel, da "Déierschutzliga" Foto: Á. Cruz 

Em Julho, publicámos um artigo (ver CONTACTO de 26/07/02) que denunciava o facto de algumas pessoas, com menos escrúpulos, simplesmente abandonarem os seus animais domésticos ao partirem para o estrangeiro, durante férias prolongadas.

Na altura, falámos com a secretária-geral da "Lëtzebuerger Déierschutzliga" (a Liga luxemburguesa de Protecção dos Animais), Sylvie Mousel. Voltámos a falar com Sylvie Mousel mas, desta vez, para sabermos mais sobre esta Liga luxemburguesa de Protecção dos Animais.

Mousel começou por nos dizer que a Liga existe há 96 anos e foi criada sob o Alto Patrocínio da Grã-Duquesa Mariana de Bragança. Existem sete secções regionais autónomas, distribuídas nas várias zonas do país, às quais a Liga fornece todo o apoio financeiro, quando necessário, ou jurídico, quando estas avançam com processos em Tribunal.

A Liga gere um orçamento anual de aproximadamente 3.500.000 francos, fundos que provêm de um subsídio da Edilidade da capital, dos seus sete mil membros (5 euros de quotização anual cada) e de donativos vários.

A Liga trata, entre outras coisas, da campanha de castração de gatos, através da sua Secção de Dudelange. Mas as suas preocupações e acções de protecção alargam-se a todos os animais, domésticos ou não.

Relações conflictuosas com os caçadores 

Mousel falou-nos ainda das relações conflituosas com as associações de caçadores. A instituição contesta, nomeadamente, a lei que autoriza os caçadores a dispararem sobre um gato se este estiver a mais de 300 metros de uma localidade.

A "Déierschutzliga" tenta também acabar com os sistemas de labirinto controlado onde as raposas capturadas são submetidas a caçadas virtuais, "o que é psiquicamente terrível para o animal", acusam. Os caçadores negam a existência de tais instalações.

Relativamente ao período que se segue ao nascimento das crias das raposas, a Liga está a tentar intervir junto do Governo para que este prolongue o tempo de caça proibida de seis para quinze ou dezoito semanas, defendendo que este é o tempo mínimo necessário para as crias aprenderem a sobreviver sozinhas.

Também contestada é a forma como os caçadores supostamente usariam animais vivos, como faisões criados em cativeiro ou gansos de asas presas, para treinar os seus cães para a caça. Para Setembro, está já agendada uma reunião entre a "Déierschutzliga" e os caçadores para tratar destes e doutros problemas.

Dá-se recompensa para mutiladores de cavalos 

Para concluir, Sylvie Mousel quis ainda chamar a atenção para a recompensa de 1700 euros, que está a ser dada às pessoas que tenham informações ou ajudem a identificar os autores das mortes e mutilações de vários cavalos, que tiveram lugar recentemente entre Leudelange e Roedgen e em Bertrange, ou contactando a Polícia Judiciária de Esch/Alzette (Comissário Krings), pelo tel. 53 18 19-805. Para mais informações pode contactar a "Lëtzebuerger Déierschutzliga", sediada no n°33, rue Adolphe, na Cidade do Luxemburgo, ou pelo tel. 45 45 35 (aberta das 8 às 12h e das 14 às 18h; encerrada aos sábados, domingos e feriados).

José Luís Correia, 
in CONTACTO, 23/08/2002

terça-feira, 16 de agosto de 2005

Gaston Roderes, chefe de Redacção do CONTACTO vai para a reforma

José Luís Correia entrevista Gaston Roderes Foto: Á. Cruz
Gaston Roderes, Chefe de Redacção do CONTACTO entre 1995 e 2002, retirou-se da vida profissional, no passado dia 1 de Agosto. Foi por esta ocasião que nos voltámos a encontrar com Gaston Roderes para uma pequena conversa de amigos, mais do que para uma entrevista, e falarmos da sua carreira de mais de 40 anos no Jornalismo, no seio da "Imprimerie Saint-Paul", e da sua experiência, nos últimos anos, à frente do CONTACTO. Gaston Roderes nasceu em 1940, na Cidade do Luxemburgo.

Viveu os seus anos de Juventude em Useldange e Cessange, frequentou o "Lycée des Garçons" de Diekirch e depois o da capital. Aos 21 anos entra ao serviço da "Imprimerie Saint-Paul" + (ISP, hoje renomeada "saint-paul luxembourg"), onde depois de trabalhar nos Serviços Administrativos, assume os comandos da Redacção Desportiva do "Luxemburger Wort" (LW); posteriormente inaugura e dirige a Rubrica Automóvel, função que viria a desempenhar até 2000.

Em 1995 é nomeado membro da Chefia de Redacção do LW. Reside há longos anos em Mamer, onde foi sempre activo a nível político, tendo sido durante 12 anos, Adjunto do Burgomestre.

CONTACTO: Depois de longos anos a trabalhar no mundo do Jornalismo, a reforma vem como o descanso merecido? 

Gaston Roderes: Sim, penso que é um repouso merecido, mesmo se nas primeiras semanas é difícil mudar os hábitos que regeram durante anos a nossa vida.

É difícil desligarmo-nos por completo do Jornalismo, daí estar contente por alguns colegas da Rubrica Automóvel continuarem a solicitar, de vez em quando, a minha colaboração. Não é portanto uma ruptura abrupta, porque uma longa carreira no Jornalismo não se corta como um fio, de um dia para o outro.

CONT.: Pode-nos contar como foi passar estes anos todos na "ISP" e no "Luxemburger Wort"?

G. R.: Quando assinei pelo "Wort" tinha 21 anos e acabado de fazer o meu Serviço Militar, obrigatório na altura. Estou contente por ter passado toda a minha vida activa no seio da ISP. Fui membro dos Serviços Administrativos, depois de alguns anos, chamaram-me para a Redacção Desportiva, na altura em que o "Wort" decidiu aumentar as suas páginas de Desporto.

Foi um desafio que aceitei e que marcou um período muito agradável da minha vida. Seguiu-se a Rubrica Automóvel, que começámos a partir do zero. Também essa foi uma época muito interessante da minha carreira. Viajei pelo Mundo inteiro e guardo boas recordações. Senti-me sobretudo muito honrado pela Direcção, que me convidou há cerca de seis, sete anos para ser membro da Chefia de Redacção. Ser membro do grupo "saint-paul", da Redacção e da Chefia de Redacção representou para mim uma grande honra.

CONT.: Durante a sua passagem pela Rubrica Desportiva estabeleceu contactos com grandes figuras do Desporto, como, por exemplo, Josy Barthel... 

G.R.: Sim, convivi de perto com Josy Barthel, enquanto ele foi Presidente do Comité Olímpico Luxemburguês. Depois quando foi Presidente da Federação Luxemburguesa de Futebol (FLF), pediu-me para eu ser o seu Acessor de Imprensa. Cruzei muitas outras personalidades internacionais do Desporto, entrevistei o então Presidente do Comité Internacional Olímpico, Juan Antonio Samaranch, aquando da sua visita ao Luxemburgo, antes dos Jogos Olímpicos de Sapporo (N.d.R.: XI Olímpiadas de Inverno, em 1972). Tive ainda a oportunidade de contactar de perto com o Grão-Duque Jean e o com o actual Grão-Duque Henri (n.d.R.: membros de honra do CSOL, enquanto Soberanos), quando este era jovem, nos famosos Jogos Olímpicos de Munique, em 1972 (N.d.R.: Olímpiadas de Verão), onde houve aquele trágico ataque terrorista ao bloco israelita... Tenho efectivamente recordações que não se apagarão tão cedo.

CONT.: No Jornalismo, as coisas mudaram muito no último meio-século? 

G. R.: Tudo evolui e o Jornalismo tem evoluído em todas as épocas. Aqui no Luxemburgo, evoluiu sobretudo depois do aparecimento da Televisão, nos anos 50. Mas as verdadeiras mudanças vieram mais tarde, no fim dos anos 60, quando tivemos que alterar o carácter das reportagens que eram feitas até aí: não bastava relatar os eventos de forma cronológica, era preciso acrescentar os antecedentes e o comentário. Tivemos que reinventar o Jornalismo e explorar os campos que a Televisão não podia, nem tinha tempo de trabalhar. Também ao nível técnico houve grandes evoluções: quando comecei no "Wort", os jornais ainda eram feitos com os caracteres de tipografia inventados por Gutenberg, e hoje é tudo feito por computador. Penso que devo ser dos raros membros da Redacção que conheceu três máquinas rotativas diferentes na ISP. Três rotativas na vida de um Jornalista também é um pormenor que marca (risos).

CONT.: Como vê o futuro do Jornalismo? Com optimismo? 

G. R.: Com um optimismo moderado. Mas tenho a profunda convicção que a Imprensa não se extinguirá se souber adaptar-se às necessidades da sociedade actual e se fornecer um trabalho de qualidade. Cada vez mais, os leitores são pessoas formadas e sabem fazer a diferença entre um Jornalismo sério e um que não o é suficientemente. Sério, não em relação ao conteúdo das reportagens, mas da qualidade do que se escreve, ou seja, do tratamento da língua que utilizamos, seja ela qual for.

CONT.: Quer falar-nos sobre a sua "aventura" no CONTACTO? 

G. R.: Quando me propuseram essas funções, hesitei em aceitar porque não sabia falar nem ler o Português. Mas, finalmente, concluiu-se que era necessário alguém que tivesse por missão coordenar o CONTACTO com os diferentes serviços do resto da empresa e que tivesse em conta, em estreita colaboração com a Redacção, a linha editorial da casa. Não me arrependo de ter aceitado, proporcionou-me muitos e bons momentos na minha vida quotidiana. Mesmo em fim de carreira, foi uma experiência muito enriquecedora, permitiu-me estabelecer novos contactos com a Comunidade e as Autoridades Portuguesas no Grão-Ducado, mesmo se lamento não terem sido mais intensas. É com orgulho que olho hoje para os anos que trabalhei com o CONTACTO, porque este foi afinal o único órgão de imprensa a ter tão bem evoluído e tanto, nos últimos anos. Desenvolveu-se ao nível redactorial, aumentou o seu volume de publicidade – o que hoje em dia não é de forma nenhuma evidente nestes tempos difíceis, sabemo-lo em toda a imprensa. No CONTACTO aconteceu exactamente o contrário e isso deveu-se sobretudo à evolução crescente do seu conteúdo redactorial. Hoje, com uma distribuição de 16 mil exemplares, tornou-se indiscutivelmente o principal elo de ligação entre a Comunidade Portuguesa e os restantes residentes do Luxemburgo.

CONT.: Já falámos do futuro da Imprensa. E para o CONTACTO, há um futuro? 

G. R.: Para o CONTACTO há um futuro que não tem directamente nada a ver com as reflexões que fiz há pouco, sobre a Imprensa em geral. Neste momento, não vejo razões para se pôr em questão o futuro próximo do CONTACTO. Com a sua taxa de penetração a um nível em constante crescimento (ver CONTACTO de 9 de Agosto de 2002) e havendo uma procura, cada vez maior, de informação por parte da Comunidade lusófona residente no Luxemburgo, hoje, mais do que nunca, o CONTACTO tem a sua razão de ser. E hoje é – ninguém o pode negar –, a publicação em Língua Portuguesa mais importante do Luxemburgo e penso que ainda vai continuar a ser assim, durante anos. Claro que é preciso ver como o jornal evoluirá e qual a sua relação com os jovens portugueses daqui. Se o dia chegar em que estes já não falem nem entendam o Português, evidentemente será preciso questionar a existência do jornal. Mas, a meu ver, não é para já. Espero que o CONTACTO continue nesta senda dos últimos anos. De uma pequena folha associativa, o CONTACTO conseguiu, em poucos anos, impôr-se no meio da Imprensa luxemburguesa, de uma forma que ninguém esperava.

CONT.: Para terminar, tem alguma mensagem especial para os leitores do CONTACTO e para a Comunidade Portuguesa em geral? 

G. R.: "Primeiro que tudo, gostaria de agradecer à equipa com a qual tive o prazer de trabalhar. Obrigado a todos os que confiaram em nós, especialmente aos leitores, que, estou convicto, continuarão fiéis ao jornal. Um obrigado também a todos os comerciantes e empresários que nos fizeram confiança a nível publicitário. Agradeço a todas as pessoas que tive a oportunidade de conhecer através do CONTACTO, com as quais vivi momentos muito interessantes. Espero que todos os Portugueses continuem a sentir-se bem no Luxemburgo. Aliás, o CONTACTO sempre defendeu que Luxemburgueses e Portugueses deviam viver juntos neste país e não cada para para o seu lado." Ao seu ex-Chefe de Redacção deseja o CONTACTO uma reforma repousante, descansada, mesmo se sabemos que continuará a colaborar com o "Luxemburger Wort", porque uma paixão e uma dedicação de 40 anos pelo Jornalismo não se acabam de um dia para o outro.

José Luís Correia 
in CONTACTO, 16/08/2002

sexta-feira, 29 de julho de 2005

Madredeus é "uma fantasia musical de raiz portuguesa", diz Pedro Ayres Magalhães

Fotos: Paulo Lobo
Formaram-se no final de 1986 e da formação original com Rodrigo Leão (Vox Ensemble), Gabriel Gomes (Sétima Legião) e Francisco Ribeiro restam apenas Pedro Ayres Magalhães (ex-Heróis do Mar) e Teresa Salgueiro, hoje acompanhados por Fernando Júdice (ex-Trovante), José Peixoto e Carlos Maria Trindade (ex-Heróis do Mar).

Hoje são um dos expoentes máximos da música portuguesa e os melhores embaixadores de Portugal no estrangeiro, com a sua música à qual se rendem multidões em países espalhados nos quatro cantos do mundo. Passaram, na última sexta-feira, dia 21 de Julho, por Wiltz, para participar no "Festival de Música e Teatro" daquela cidade. Era a terceira vez que vinham ao Luxemburgo. E, mais uma vez, valeu a pena.

Valeu a pena ir até Wiltz e ver aquele ambiente de pequena cidade rústica, no meio de montes e vales verdejantes que já conhecemos, sublimado pela primorosa música dos Madredeus e pela magnífica voz de Teresa Salgueiro, que a todos encantou.

O espectáculo começou eram 21 horas, ainda o sol banhava Wiltz com uma média luz. O crepúsculo caía e também a música dos Madredeus se ia tornando mais intimista e mais próxima do público. Este, na sua maior parte composto por luxemburgueses (notavam-se também muitos portugueses, claro!), rendia-se de corpo e alma à voz doce de Teresa Salgueiro.

No final, o grupo não pôde sair de palco sem um "bis" obrigatório e mereceu uma "standing ovation" (ovação de pé) emocionante. Depois do concerto, a organização do Festival convidou uma pequena comitiva para uma recepção com o grupo. Entre conversas de admiradores e autógrafos, o CONTACTO conseguiu falar com Teresa Salgueiro, Pedro Ayres Magalhães e Carlos Maria Trindade.

Uma das perguntas que fizemos aos três foi como definiam o seu som, questão que tem atormentado muitos críticos de música quando tentam "rotular" o género de música interpretada pelos Madredeus. Como se fossem preciso "rótulos" ou denominações para classificar esta música e os Madredeus! Os Madredeus de quem Miguel Esteves Cardoso disse (em 1987), muito antes de ter chegado a hora da consagração nacional e internacional, que esta era a melhor esperança da nação e esta música "um dos géneros da verdade".

"Uma música dedicada à língua portuguesa" 

CONT: Esta é a terceira vez que vêm ao Luxemburgo. Foi bom voltar a vir actuar cá? 

Teresa Salgueiro: Já há alguns anos que não vinhamos ao Luxemburgo. Das outras duas vezes que viemos foi em situações muito diferentes e o lugar em que tocámos não era tão agradável. Desta vez, o cenário era mais propício, estava algum frio, mas penso que as pessoas gostaram e apreciaram a música com muita atenção. Eu, pessoalmente, gostei muito de cá estar. Vivi esta terceira passagem por aqui com alegria, mas esta é uma visita muito breve, porque amanhã já vamos embora.

CONT.: Este concerto no Luxemburgo fez parte de uma digressão mais larga pela Europa? 

T. S.: Sim, estamos a meio de uma viagem. Chegámos aqui vindos de Roma, fizemos seis concertos em Espanha, e do Luxemburgo seguimos para a Croácia. Depois da Croácia vamos fazer o último concerto da digressão espanhola, a Santiago de Compostela e por fim estaremos em Londres, no dia 30 de Julho. Daí seguimos para Lisboa. Este concerto foi estreado em Paris, passámos ainda por Bruxelas, Belgrado, Antuérpia (Anvers), Jerusalém, Telaviv, Berlim, Hanôver. Em Agosto vamos pela primeira vez fazer um mês de férias, algo que nunca conseguimos fazer nestes dez anos de viagem. Depois do mês de Agosto vamos ao Brasil (Manaus), México, Argentina, Finlândia. Em Novembro e Dezembro está prevista uma digressão em Itália.

CONT.: Como explica este sucesso internacional dos Madredeus? 

T. S.: Não me compete a mim explicar este sucesso, cabe ao público. Mas penso que as pessoas gostam do estilo original de música que criámos. Acho que se nota também o gosto que temos em fazer concertos e estas grandes viagens que temos feito com a nossa música é que nos têm merecido o entusiasmo do público em tantos países diferentes. Penso que o público aprecia o ambiente particular que se estabelece, acho que temos uma música muito transparente, com que as pessoas se identificam. Temos viajado muito, as pessoas já nos conhecem e voltam a ver-nos e nós também queremos voltar a vê-las e retribuir-lhes o interesse e o entusiasmo que nos dão, com novas músicas.

CONT.: Daí neste concerto terem apresentado muitas novas canções... 

T.S.: Este é o concerto que preparámos e que estamos a apresentar este ano. Gravámos um disco no início deste ano, o ano passado foi preenchido por uma digressão com muitos temas conhecidos. Este ano, optámos por apresentar novas músicas. Se por um lado as pessoas podem gostar de ouvir músicas antigas, penso que gostam de saber da criatividade e vontade que os músicos têm de responder ao seu entusiasmo com novas criações. Eu, pessoalmente, gosto muito das canções novas.

CONT.: Como é que define a música dos Madredeus? 

T. S.: Acho que é um estilo de música completamente original. É música portuguesa, dedicada à palavra, ao canto da língua portuguesa. É uma música que visita muitos ouros estilos, tem essa liberdade. Mas não encontro uma definição particular, não tenho um rótulo para lhe dar...

CONT.: Além dos Madredeus, pensa, no futuro, numa carreira a solo, ou em projectos diferentes? 

T. S.: Até ao fim do ano vou andar em viagens com os Madredeus. Para o ano, é lançado o nosso próximo disco. O trabalho com os Madredeus é muito intenso e tem sido, no fundo, a minha escola, tem sido através destas canções, que são feitas para mim, que tenho crescido e aprendido até que ponto é grande este meu gosto pela música. Há algumas coisas que eu gosto de cantar que não são Madredeus, como canções tradicionais. Gosto também muito de cantar fado, mas não sei se um dia se virá a justificar e se terei disponibilidade para fazer um trabalho. Gostaria de poder vir a fazê-lo, mas não tenho ainda nada de concreto previsto nesse sentido.

(cont. na pág. seguinte) 


"Uma orquestra de bolso" 

CONT: Como foi esta visita ao Luxemburgo, um país onde os esperam sempre muitos portugueses fãs do grupo? 

Pedro Ayres Magalhães: Foi muito boa, visto que tocámos no quadro de um festival como este e num sítio dedicado à Música, um local extraordinário. Nos concertos anteriores que demos aqui tocámos num pavilhão, onde não é tão aprazível tocar. O Luxemburgo tem esta particularidade de quando vimos cá, esperamos sempre a presença da comunidade portuguesa. Sente-se o entusiasmo e o ambiente, é por isso particular.

CONT: Como define o som dos Madredeus? 

P.A.M.: Essa é mais uma preocupação enciclopédica que eu não tenho muito. Por vezes pergunto-me se Madredeus é música clássica, se é fado? É, em todo o caso, uma música anti-académica, feita por estudantes de música, que toca influências vagas da música popular, do pop-rock, no fundo, da música contemporânea do nosso tempo. Procuramos criar um repertório para a poesia portuguesa cantada, bem como para a guitarra clássica, guitarra brasileira, guitarra portuguesa, guitarra flamenca, buzouki, harpa. Imaginamos o que podemos tocar com as nossas guitarras, o sintetizador e a voz da Teresa, tentando ser o mais criativos possível para explorar todas as potencialidades deste "ensemble". Quando cheguei aqui estava a perguntar-me se os luxemburgueses iam pensar que isto era mesmo fado ou não, enquanto que todos os portugueses sabem bem que isto não é fado. Para os portugueses Madredeus é Madredeus, ninguém precisa de explicações! O reportório dos Madredeus é uma tradução do fado, uma música feita inspirada nessa música de Lisboa, uma inspiração poética no feitio do fado. Cantamos inspirados na música de Lisboa, sem cantar a música de Lisboa! Eu gosto de chamar à música dos Madredeus: "uma fantasia musical de raiz potuguesa". Ou então "uma orquestra de bolso", porque afinal são apenas quatro músicos e uma voz.

CONT: Quando esta aventura começou em 1987, no antigo Convento da Madre de Deus, em Xabregas (zona oriental de Lisboa), imaginavam que poucos anos depois viriam a atingir este êxito internacional? 

PAM: Quando começámos queríamos apenas fazer música diferente. Decidimos que era música para uma voz feminina, que não havia de ter baterias, nem percussões, senão não se ouvia nada do que ela cantava. Queríamos explorar música do tipo "Madrigal", as canções alentejanas, o fado, as baladas pop-rock. Nessa altura não nos preocupava ser famosos, preocupava-nos criar um repertório. Depois a nossa preocupação foi gravar esse reportório e apresentá-lo ao vivo. Ao príncipio fazíamos 20 concertos por ano, era uma coisa amadora na nossa vida, um divertimento. Foi assim até 1991 em que fizemos a nossa primeira digressão em Portugal que foi um grande êxito. Começámos inclusive a receber convites do estrangeiro. As tantas tivemos que decidir se íamos ser profissionais ou não, e que isso implicaria a possibilidade da nossa música ser editada em todo o mundo. Evitámos sempre demasiada exposição na tv e na rádio, concentrámo-nos nos concertos e na construção do repertório, tentando melhorar a música, viajando com ela. Isto nunca foi previsível em nenhum momento. Neste momento o grupo é uma coisa revolucionária. Acabamos de vir de uma tournée de seis concertos em Espanha, onde os Madredeus com a sua pequena orquestra tocaram, como aqui, em espaços da melhor música que se faz no mundo. Isto nunca foi possível imaginar nesses primeiros anos.

CONT.: Para os admiradores da voz do Pedro Ayres Magalhães, saudosos desta dos tempos da Resistência, em que interpretava nomeadamente os temas "Nunca Mais" (álbum "Palavras ao Vento") e "Perigo" (álbum "Mano a Mano"), quando é que podem esperar voltar a ouvi-la? 

P.A.M.: (risos) Eu não tenho muito jeito para cantar, embora goste muito de cantar. Esses discos, em que cantávamos todos juntos, + foram muito felizes ...

CONT.: A Resistência acabou definitivamente? 

P.A.M.: Quando nos encontramos falamos sempre nisso. Algumas das bandas naquela altura ainda não eram tão famosas como são hoje. Era sempre muito difícil juntar toda a gente e hoje ainda mais. Mas continuamos a ter esse sonho porque foi para nós algo importante...

"Um som único" 

CONT: Foi bom voltar ao Luxemburgo no quadro deste Festival de Música e Teatro de Wiltz? 

Carlos Maria Trindade: Este festival é muito bem organizado. Para nós é sempre bom, porque costumamos fazer este circuito de festivais por toda a Europa. As pessoas que frequentam estes festivais são pessoas que gostam de música e que têm um espírito aberto. Não precisamos só de um público que vá ver os Madredeus porque são famosos, mas porque ouvem a música, e este público acho que ouviu a música...

CONT.: Faço-lhe a mesma pergunta que fiz à Teresa e ao Pedro Ayres, como é que definiria a música dos Madredeus?

C.M.T.: É um som único, um som baseado em composições originais cantadas em Português, para a voz da Teresa Salgueiro, que é o mais importante. Isso é Madredeus.

CONT.: E consegue ter tempo para os seus outros projectos, nomeadamente a solo? 

C.M.T.: O José Peixoto e eu trabalhamos a tempo inteiro para os Madredeus, mas sempre que podemos trabalhamos nos nossos projectos individuais. É importante, perante nós próprios sabermos que ainda podemos fazer música de autores individuais e explorando mais a técnica instrumentalista. Quando compomos para os Madredeus sabemos que vamos compor para aquele grupo, para aquela voz e trabalhamos de maneira específica para os Madredeus, que é um grupo semi-acústico muito interessante.

Festival de Wiltz 2001 com Gilberto Gil

A actuação dos Madredeus em Wiltz foi um dos maiores sucessos dos últimos tempos, confidenciava-nos, no final do espectáculo, um responsável da organização.

"O recinto estava lotado, estavam cerca de 1100 pessoas. É um record para o Festival de Wiltz, que costuma ter entre 600 e 900 pessoas quando temos casa cheia. Só o Miles Davis igualou este número em 1991, quando veio cá", disse o mesmo reponsável, visivelmente satisfeito, adiantando "para o ano já estamos a pensar em cá trazer o Gilberto Gil".

A toda a organização do Festival de Wiltz um bem-haja por este tipo de iniciativas e por ter trazido até nós um dos melhores grupos e o mais internacional da música portuguesa.

Texto: José Luís Correia
Fotos: Paulo Lobo 
in CONTACTO, 28/07/2000

quarta-feira, 20 de julho de 2005

No Conselho de Imprensa do Luxemburgo

Foto: Marc Wilwert

De 8 de Março a 11 de Maio decorreram na "Maison de la Presse", na capital, cursos organizados pelo Conselho de Imprensa do Luxemburgo sobre a Constituição Europeia, finanças comunais e outros temas de interesse que acabaram por enriquecer os frequentadores dos mesmos.

Na semana passada, os 22 jornalistas que ali se deslocaram semanalmente receberam os diplomas: Jean-Marie Backes (Tageblatt); Ulrike Botzler (Télécran); Marion Bur (La Voix du Luxembourg); José Luís Correia (CONTACTO); José Campinho (Correio); Ralph Di Marco (La Voix du Luxembourg); Maurice Fick (La Voix du Luxembourg); Marie-Paul Fischbach (de radio 100,7); Alex Fohl (Tageblatt); Pascal Hansen (Tageblatt); René Hoffmann (Le Jeudi); Diane Klein (RTL); Joseph Lorent (d'Wort); Lucien Montebrusco (Tageblatt); Sascha Seil (Tageblatt); Fabienne Pirsch (Télécran); Tom Reisen (Tageblatt); Max Theis; (RTL); Wolf von Leipzig (d'Wort); Patrick Welter (Lëtzebuerg Journal); Marc Willière (d'Wort) e Raphaël Zwank (d'Wort).

in CONTACTO
20/07/2005

sábado, 16 de julho de 2005

Concerto de Sara Tavares: Arco-íris musical em Wiltz

Aos 26 anos, Sara Tavares é já um valor seguro da música em Portugal 
Foto: Jos. Scheer 

A meio caminho entre a África e a Europa, e com influências que vão desde o gospel e o jazz à bossa nova, passando pelo fado e pela música portuguesa, as canções de Sara Tavares conquistaram a cidade alta de Wiltz, no passado domingo.

A assistência – cerca de 300 pessoas – deixou-se aquecer pela voz solar da cantora, apesar da chuva e do frio que insistiam. Sara soube, a cada instante – com músicas como "Chuva de Verão" e "Tu és o Sol" – aproveitar o lento entardecer bucólico do local, para transportar o público num arco-íris musical que durou cerca de uma hora e meia. Afinal, ela era a estrela, o novo sol.

A jovem cantora, hoje com 26 anos, provou que fez uma longa caminhada desde a "Chuva de Estrelas" (programa da SIC, onde foi revelada, em 1994). Cantou músicas dos seus dois álbuns com voz sempre sentida e como se estivesse entre amigos. E estava, porque o público, até aquele que não conhecia o seu trabalho, rendia-se. "Estrela Mãe" (já a noite caía), escrita por Paulo de Carvalho e composta por Ivan Lins especialmente para si, foi um instante sereno.

Sara ofereceu ainda ao público "Balancê", do seu próximo álbum. Alternavam músicas suaves e outras mais batucadas e houve quem não resistisse a dar um pé de dança e saltasse da plateia para junto do palco. Trocando a guitarra pela percussão com bastante à-vontade, Sara encantou sobretudo em momentos únicos como quando cantou a solo a canção de embalar "Barquinho da Esperança", do seu primeiro álbum ("Sara Tavares & Shout", de 1996), um original das "Doce" (escrito, em 1984, por Pedro Ayres Magalhães e Miguel Esteves Cardoso), que revisitou com a sua voz quente, ao mesmo tempo que tocava "calimba" (um instrumento africano feito a base de palhetas).

No fim, e com o seu sorriso, Sara conseguiu mesmo contagiar os mais fleugmáticos e irredutíveis do público a acompanharem-na em "Mi ma bô" (canção do álbum do mesmo nome de 1999).

Em conversa com a nossa reportagem, confia-se seduzida por Wiltz: "Quem organiza este Festival tem uma visão com muita sensibilidade. É muito bonito. Cantei a primeira canção a capella com os passarinhos (sorrisos)... Apesar de ser um recinto ao ar livre, as pessoas respeitarem silêncio absoluto. É um lugar fantástico. Adorei!"

Sara ainda se lembra bem da sua passagem, há quatro anos, por Kockelscheuer.

"Quando vim cá pela primeira vez, estava muito entusiasmada, o disco tinha saído há pouco tempo. Era das primeira vezes que eu saía de Portugal com aquele disco. Havia aquela euforia de mostrar a música às pessoas", recorda.

E fala-nos da sua evolução desde então: "Embora o projecto usasse as mesmas canções como base, é agora diferente. Hoje, estou numa fase mais intimista, estou preparada para explorar outras sonoridades. Estou mais próxima não só das minhas raízes culturais e familiares, mas das minhas raízes pessoais e espirituais. Sinto-me mais madura, embora saiba que é um processo e que ainda sou muita nova." Este processo explica-o, afirmando-se profundamente mediterrânica.

"Nasci e cresci em Portugal e a música portuguesa esteve sempre presente. Depois, quando comecei a trabalhar, interessei-me muito pela música cabo-verdiana. Em Cabo Verde sou aceite como crioula, mas também sou vista como uma europeia. A minha música está também a meio caminho desses dois continentes", diz. O próximo álbum já está na calha, mas "não há datas", e justifica-se dizendo que "diariamente trabalho nas ideias, nos arranjos, serão essencialmente composições minhas. Estou num processo muito grande de descoberta da minha musicalidade. É isso que eu quero agora apresentar e partilhar com as pessoas".

Tendo optado pelo gospel em determinado momento da sua carreira, hoje, os seus sons mudaram, mos o essencial ainda lá está: "Acredito muito em Deus. Acho que a minha música é uma oportunidade de abraçar as pessoas e de lhes passar uma mensagem. Será sempre a mensagem bíblica de paz e amor, e de libertação para todos os povos". Não gosta que lhe chamem nem se considera embaixatriz de Cabo Verde, ao mesmo título que Cesária Évora, por exemplo. Diz antes que a sua voz representa a "nova geração, dos que nasceram em Portugal, no Luxemburgo, na Holanda, na América, onde há grandes comunidades da segunda e terceira geração de cabo-verdianos".

"Eu não canto os estilos tradicionais de Cabo Verde. A minha música é mais contemporânea, mais europeia, mais mestiça ainda que aquela mestiçagem". No fim do concerto, o público não a deixou partir sem um "encore". Voltou com "Borboleta" e a esvoaçar se foi... para voos mais altos. Por cá, esperamos pelo seu regresso.

José Luís Correia 
in CONTACTO, 16/07/2004

quinta-feira, 16 de junho de 2005

Jornal CONTACTO galardoado com Placa de Mérito das Comunidades Portuguesas

(Da esq. p/ a dta.) Álvaro Cruz, correspondente desportivo do CONTACTO, Pe.Belmiro, editorialista do CONTACTO, Paul Zimmer, director-geral da ISP, o secretário de Estado, José Lello, Natália Morais, correctora/tradutora do CONTACTO, José Luís Correia, redactor no CONTACTO, com a Placa de Mérito atribuída ao nosso jornal,Manuela Geraldes, secretária do CONTACTO e Gaston Roderes, chefe de Redacção do nosso jornal Fotos: M. Dias
No passado domingo, dia 11 de Junho, teve lugar no Cercle Municipal, na Place d'Armes da capital, uma cerimónia para assinalar o "10 de Junho - Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas", na presença do secretário de Estado das Comunidades Portuguesas, José Lello, do embaixador de Portugal, Paulo Couto Barbosa, do cônsul-geral, Mário Damas Nunes, do vice-cônsul, António Martins Antunes, do deputado Paulo Pisco, do conselheiro social e cultural da Embaixada, Rui Dias Costa, e do chefe dos Serviços Sociais do Conulado, José Araújo.

Depois de passar por Hanover e Bruxelas, José Lello deslocou-se ao Luxemburgo por ocasião deste "10 de Junho" para homenagear três instituições, "pelo seu trabalho para a boa integração da comunidade portuguesa no Luxemburgo", com a Placa de Mérito das Comunidades Portuguesas. Um dos galardoados foi o nosso jornal, pelo seu 30° aniversário.

Paul Zimmer, director-geral da Imprimerie Saint-Paul, editor do CONTACTO, recebeu o galardão das mãos do secretário de Estado.

José Lello homenageou ainda o Grupo Desportivo "Os Lusitanos" pelos seus 25 anos (comemorados em 1999), na pessoa do seu presidente demissionário António Cerqueira, e o Centro de Apoio Social e Associativo (CASA) pelos seus 20 anos, representado pelo seu presidente José Ferreira Trindade.

Recebeu ainda a Menção Honrosa do Prémio Camões, a autora Maria Teresa Pimentel.

Depois da alocução de boas-vindas do cônsul-geral Damas Nunes, realizou-se um pequeno recital com os pianistas Adriano Jordão, conhecido artista vindo de Portugal e o jovem Michel Lopes, residente no Luxemburgo.

Michel Lopes começou por interpretar uma obra de Franz Liszt, a "Primeira balada em ré bemol maior", enquanto Jordão interpretou a "Fantasia Triunfal" de Louis Gottschalk. Esta obra é "uma fantasia, são variações sobre o hino nacional brasileiro", como explicou o próprio Jordão ao público, "já que estamos a comemorar os 500 anos do Descobrimento do Brasil", disse ainda. Depois, as duas gerações, interpretaram uma obra de Ravel, a quatro mãos.

Seguiu-se a actuação da jovem cantora Raquel Barreira, que acompanhada pelos seus dois guitarristas interpretou dois temas: o já célebre "Menino de sua mãe", poema de Fernando Pessoa musicado por Thierry Kinsch e um original do seu primeiro álbum em preparação, "Sete Colinas", com letra da cantora e música de Kinsch.

José Lello declarou-se muito satisfeito ter vindo celebrar com a comunidade portugesa do Luxemburgo, esta festa do 10 de Junho, declarando que, graças às comunidades portuguesas espalhadas pelo mundo , "a nação portuguesa não tem fronteiras". Lello, evocou ainda o drama de Wasserbillig de há algumas semanas, "um dia de grande dor para a comunidade portuguesa".

O secretário de Estado teve ainda a oportunidade de se encontrar com representantes da Confederação da Comunidade Portuguesa no Luxemburgo, CCPL e do seu Grupo de Acção Jovem GAJ. Esta cerimónia terminou com um cocktail oferecido ao público presente.

JLC 
in CONTACTO, 16/06/2000

segunda-feira, 13 de junho de 2005

José Luís Correia condecorado




O nosso responsável de Redacção, José Luís Correia, recebeu o troféu das mãos de Lurdes Monteiro, membro da Alta Autoridade para a Comunicação Social Foto: "Voz de Azeméis" (com a devida autorização)

Na cerimónia do 33° aniversário do jornal "Voz de Azeméis" e 15° da revista "Portugal" (vocacionada para emigrantes), que decorreu no passado dia 31 de Maio, em Oliveira de Azeméis, foram distinguidas três individualidades da Comunidade Portuguesa do Luxemburgo: Luís Barreira, Director da Rádio Latina, Joaquim Xavier, Presidente do Rancho "Amores Perfeitos" e José Luís Correia, responsável da Redacção do nosso jornal.

Os três homens receberam o Troféu "Prestígio e Dedicação/Comunidades Portuguesas", que são entregues anualmente, há já 12 anos, pelo jornal "Voz de Azeméis" e pela revista "Portugal" por ocasião dos respectivos aniversários. Pretendem também homenagear personalidades que se distinguem em prol da causa lusíada.

Foram ainda agraciadas 19 outras personalidades que trabalham em Portugal ou nas Comunidades Portuguesas espalhadas pelo Mundo: o "mayor" Paul Tavares - dos Estados Unidos; o professor universitário Elídio Brito - do Canadá; o dirigente associativo Hermano Sanches Ruivo - de França, foram outras três personalidades distinguidas com este troféu.

Na cerimónia deste ano, Aníbal Araújo, director das duas publicações, deu as boas-vindas a todos os presentes, entre os quais se destacaram o Secretário de Estado da Juventude e Desporto, Hermínio Martinho e do Deputado, ex-ministro do Desporto e Juventude e ex-secretário de Estado das Comunidades Portuguesas, José Lello, bem como da deputada e ex-secretária de Estado da Emigração, Manuela Aguiar.

Um organismo para congregar os luso-descendentes 

O secretário de Estado das Juventude e Desportos, Hermínio Loureiro, anunciou, em Oliveira de Azeméis, o propósito de criar um organismo que congrege Luso-descendentes de todo o mundo.

Quanto ao antigo secretário de Estado das Comunidades, José Lello, defendeu que Portugal e os seus valores estão a seduzir a terceira geração de Luso-descendentes, invertendo uma tendência verificada com a segunda geração.

Portugueses lêem de forma diferente! 

Nesta cerimónia foram ainda abordadas questões como a importância da Imprensa regional em Portugal e os hábitos de leitura de jornais dos Portugueses. O Director da "Voz de Azeméis" e da revista "Portugal", Aníbal Araújo, admitiu ser "imprescindível" modernizar a Imprensa regional, "tornando-a atractiva".

O Presidente da Associação Portuguesa de Imprensa (API), João Palmeiro, contestou a ideia-feita de que Portugal é dos países europeus onde menos jornais se lêem.

"Não é verdade que lemos poucos jornais. Fazemo-lo é de maneira diferente dos outros", disse, explicando que Portugal é o penúltimo país europeu em leitura de diários, mas alcança a terceira posição na leitura de publicações não-diárias.

in CONTACTO,
13/06/2003

quarta-feira, 8 de junho de 2005

Que Europa queremos afinal?

Mas o que está afinal a levar os europeus a recusarem uma Constituição com a qual todos deveriam identificar-se?

Uma Constituição que pretende, sobretudo, dotar a União Europeia de uma voz política (política exterior comum), através da criação de cargos como o de Presidente ou o de ministro dos Negócios Estrangeiros da UE.

Tememos uma "ditadura europeia" como a viúva de Mitterrand, ou como o profetiza João Aguiar no seu romance de antecipação, "O Jardim das Delícias"?

A UE é o único espaço político de toda a Geografia e de toda a História a ter sido criado pelo consentimento mútuo dos povos e não pela força. E não há razões para que mude.

Os Estados Unidos perceberam que afinal tinham de contar com a UE quando o sempiterno e omnipotente dólar fraquejou face ao euro. A UE conseguia assim demonstrar que tinha algo a dizer no palco da economia mundial, em constante e rápida evolução. Também a China está a perceber que, economicamente, não pode impôr as suas regras à UE. Porque, nesta matéria, a UE consegue lutar com uma só e mesma voz.

Mas o Mundo já descortinou a fraqueza da UE: a sua divisão a nível político, a exemplo do que sucedeu recentemente na questão da Guerra do Iraque. Porque a UE não soube reagir em uníssono. Cada estado-membro preferiu adoptar a posição mais conveniente relativamente às relações que já teve, mantém ou pretende no futuro desenvolver com os EUA.

Se, muito rapidamente, a UE não souber munir-se de uma Constituição, não conseguir falar a uma só voz, não será tida nem achada nas decisões políticas, mas também económicas (umas dependendo das outras) do século XXI nascente.

Se conseguimos pôr-nos de acordo em matéria económica, porque não política? Ou estes "não" foram apenas ondas de contestação aos governos nacionais? É legítimo fazê-lo em referendos onde a construção europeia está em jogo?

É, porque os cidadãos sentiram que era a única maneira dos governantes os ouvirem, quando há tanto tempo se queixam de uma Europa que lhes parece cada vez mais abstracta, sem se preocupar com os seus problemas reais.

Estes dois „Não“ são sobretudo a prova da incapacidade dos governantes e dirigentes em explicar às populações o que está realmente em causa.

Os políticos falam-lhes do amanhã, de uma Europa que, face às potências económicas mundiais vigentes ou emergentes (EUA, China e outros países asiáticos), só conseguirá desenvolver-se, alargando-se, como o fez a Leste e como está a pensar fazê-lo para a Turquia – e, quem sabe até, um dia, para a imensidão da Rússia ou do Maghreb? E porque não, se estiver garantida a democracia e o respeito dos direitos humanos nesses países?

Os objectivos da UE sempre foram e serão, com esta ou outra denominação, a expansão de um espaço de paz e de estabilidade. Não se trata apenas de uma questão de identificação cultural – ser mais ou menos europeu –, trata-se de sobrevivência, num futuro comum.

Mas os trabalhadores não querem saber de amanhãs improváveis. Querem que se acabe hoje com o desemprego que os assombra, com os benefícios sociais ameaçados, com a precaridade que espreita. Temem as deslocalizações e a invasão de imigrantes de Leste que são pagos com metade dos salários. O medo que franceses e outros tinham do pedreiro português em 1986 reaparece em 2005, transfigurado em pavor do canalizador polaco. E é um medo compreensível! Mas são medos perigosos porque conduzem ao isolacionismo e ao radicalismo.

Mas alguém lhes explica que, se as empresas se deslocarem para Leste, é preferível a falirem se não houver alargamento? Alguém lhes diz que a população europeia está velha e que em 2013 haverá mais gente na reforma do que a trabalhar? Que para pagarmos esses reformados o Estado terá de reter dois terços dos salários da população activa ou simplesmente acabar com a Segurança Social estatal. Ou que teremos provavelmente de "importar" mão-de-obra chinesa ou até – será assim tão inacreditável – emigrar para a Ásia, única região ainda em franca expansão económica? Alguém lembra aos portugueses que, com a actual crise, se Portugal não estivesse na zona euro, estaria a pedir ao FMI para desvalorizar dramaticamente o escudo?

Há que explicar aos cidadãos europeus que, mesmo numa época de crise, somos a zona que garante mais direitos sociais no mundo. Que palavras como "liberal" e "concorrência" podem aparecer mais de 25 vezes no texto da Constituição, mas que a palavra "social" aparece quatro vezes mais.

A UE não é perfeita, mas foi o que de melhor se encontrou até agora. Tem garantido a paz e a estabilidade política e económica nos nossos países. Porque o seu objectivo tem sido e continua a ser: o nosso futuro comum.

Há que saber explicar às populações o que se pretende com a UE, em que sentido devemos evoluir e porquê. Mas também é necessário escutar o que os povos têm a dizer e o que querem da Europa . Um diálogo. Não monólogos e atitudes autistas de eurocratas!

A Constituição Europeia é uma necessidade, nesta ou noutra forma. Reveja e corrija-se. Chega de noções técnicas, fórmulas complicadas e de decidir projectos que os europeus não entendem. É necessário que todos sintamos que a Europa não é apenas Bruxelas. A Europa somos todos nós.

José Luís Correia, in Contacto, 08.06.2005

quinta-feira, 5 de maio de 2005

Heroína de Pina, uma das testemunhas privilegiadas do nascimento do CONTACTO

Heroína de Pina Foto: Teddy Jaans
Heroína de Pina é desde a primeira hora um membro activo das "Amizades Portugal-Luxemburgo" (APL). Enquanto esposa (hoje viúva) de Carlos de Pina, um dos principais fundadores e impulsionadores do CONTACTO, foi testemunha privilegiada do nascimento do jornal, em Janeiro de 1970.

Acompanhou o crescimento e a evolução do jornal até 1987 - altura em que este passou da alçada das APL para a responsabilidade da Imprimerie Saint-Paul (ISP) - partilhando os sonhos, o esforço, o "amor à camisola" do seu marido e de um pequeno grupo de "carolas" que iam dando tudo para que o jornal fosse publicado e chegasse às mãos dos leitores.

O CONTACTO foi falar com Heroína de Pina sobre os inícios dificeis do lançamento do jornal e os primeiros anos, como evoluiu e como o vê hoje, 30 anos depois.

CONTACTO: Enquanto uma das testemunhas privilegiadas do nascimento do jornal CONTACTO, pode dizer-nos um pouco como tudo aconteceu? 

Heroína de Pina: Antes de existir o CONTACTO propriamente dito, existia uma folha policopiada, a "Voz do Imigrante", que foi criada para permitir a comunicação entre portugueses, a passagem da informação, já que não havia imprensa portuguesa, nem meios de comunicação portugueses. Daí o desejo de se criar num primeiro tempo esta folha policopiada, para manter ao corrente os imigrantes do que se ia passando no Luxemburgo, e durou cerca de um ano. Essa folha foi criada essencialmente para ser um elo de ligação entre os portugueses aqui radicados e Portugal. Já na altura o Sindicato Cristão nos ajudava na elaboração dessa folha. Esta folha foi mais tarde substituída pelo jornal CONTACTO, que continuou sob a direcção das "Amizades Portugal-Luxemburgo".

CONT.: Como nasceu a ideia de criarem um verdadeiro jornal? 

H.P.: A folha não tinha uma periodicidade regular, nem grande qualidade gráfica. Fez-se um jornal para sair regularmente todos os meses e com outro tipo de grafismo, imagem e informações mais completas. Sentimos a necessidade de introduzir mais informação. As exigências eram outras, a comunidade portuguesa foi aumentando.

O jornal passou a ser distribuido não só aos sócios das APL (a ficha de inscrição às APL incluia uma assinatura anual), mas também nas igrejas e noutros locais ao público. O jornal tinha nessa altura muita importância para os imigrantes.

Através do CONTACTO os portugueses ficavam informados sobre certas questões administrativas, alterações de certas leis, modificações dos contratos de trabalho, períodos de férias e outras informações de interesse geral.

A nível do governo, existia apenas um Encarregado do Ministério que estava provisoriamente ao serviço da Imigração, só mais tarde foi nomeado um Comissário. Antes disso não havia quase nada e assim era necessário criar algo para informar os portugueses.

No príncipio era dificil, envíávamos os textos daqui para Portugal, depois este era impresso e paginado numa gráfica de lá e só depois regressava para poder ser distribuido aqui no Luxemburgo. Aconteceiam frequentemente atrasos ou por causa da tipografia ou devido aos correios. Os nomes e as moradas eram escritas à mão numa cinta em que eram envoltos os jornais, tudo isto era feito por um grupo de voluntários. Durante muito tempo o jornal esteve a cargo do meu marido.

Em 1976 teve problemas de saúde e deixou de poder continuar à frente do jornal. Sucederam-lhe o Pe. Manuel Fernandes e o sr. Huss.

Quando o meu marido e eu chegámos cá em 1964 não havia cá muitos portugueses, havia talvez cerca de 500 dispersos por todo om país. No príncipio quando ouvíamos falar português era uma coisa extraordinária. O meu marido sempre tentou que os portugueses não estivessem sozinhos, que os luxemburgueses reconhecessem, apreciassem e recompensassem o trabalho dos portugueses. E assim que chegou cá começou logo a pensar em fazer alguma coisa.

Em 1965, o meu marido juntou alguns portugueses que entretanto tinham chegado ao longo desse ano e a primeira coisa que ele fez foi organizar a Festa de Camões, o Dia de Portugal, na qual apareceram mesmo muitos portugueses.

Nos primeiros anos da imigração portuguesa o Dia de Portugal continuou a ser organizado pelas APL, das quais o meu marido foi também um dos fundadores. Multiplicou contactos com alguns luxemburgueses e portugueses e daí nasceram as "Amizades Portugal-Luxemburgo". Foi aliás no seio das APL que nasceram o primeiro grupo folclórico português "Flores de Portugal" e a primeira equipa de futebol portuguesa.

Mas o meu marido não quis ficar-se apenas pelas APL, e criou-se então uma folha informativa que tinha os mesmos objectivos das APL: veicular a informação e comunicação entre imigrantes portugueses do Luxemburgo, não deixar morrer o contacto destes com Portugal, fomentar o diálogo com os luxemburgueses e ajudar os portugueses na sua integração na sociedade de acolhimento. O espírito que levou à criação do CONTACTO é o mesmo espírito que tinha levado à criação das APL.

CONT.: Considera que o CONTACTO contribuiu à integração dos portugueses na sociedade de acolhimento? 

H. P.: O CONTACTO ajudou muito a integração dos portugueses no Luxemburgo. Os portugueses que recebiam o jornal estavam informados sobre o que se passava em Portugal e no Luxemburgo e as dificuldades e problemas que a imigração portuguesa enfrentava no seu dia a dia. A comunicação não era como agora, nem se ia com a mesma facilidade a Portugal como se vai hoje.

CONT.: Como viveu a transição do CONTACTO das APL para a ISP, em 1987 ? 

H.P.: Há muitos anos que se andava a tentar que o CONTACTO fosse tomado a cargo pelo grupo ISP, que edita o principal jornal do país, o “Luxemburger Wort”. Os custos do jornal foram durante 17 anos suportados unicamente pelas APL. O jornal também tinha muito poucos anúncios que pudessem ajudar nas despesas. O jornal tinha-se tornado demasiado dispendioso para poder ser suportado pelas APL e era difícil continuar a sua impressão, publicação e o seu envio de Portugal. As APL também não podiam pagar uma impressora aqui no Luxemburgo. A única e melhor solução era ser retomado por um grupo forte como o da ISP. E o facto do CONTACTO passar a ser publicado pela mesma casa que o “Wort” era afinal o reconhecimento da utilidade pública do próprio jornal.

CONT.: Com que olhos vê/lê hoje um jornal que ajudou a fundar há 30 anos? 

 H.P.: Não fui uma das fundadoras. Mas através do meu marido estive sempre ligada ao jornal de uma forma ou de outra. Participei muitas vezes com textos para a rubrica de culinária ou para a página feminina... Ao olhar hoje para o jornal vejo que houve uma grande evolução e penso naquela “folhinha” policopiada, nos primeiros números do jornal com apenas algumas páginas. Hoje o CONTACTO tem a sua própria Redacção. Antes de passar sob a alçada da ISP a redacção do jornal era constituida unicamente por membros das APL que com muito esforço iam escrevendo e aguentando o jornal. Mas muitas vezes era o meu marido que escrevia vários textos assinando com iniciais diferentes para parecer que o jornal era escrito por muita gente. Guardo em casa todos os jornais, do primeiro de Janeiro de 1970 ao último feito pelas APL, em Dezembro de 1986, e no outro dia passei com os olhos pelos velhos números, e vê-se a grande diferença que existe entre esses números e o jornal hoje em dia. Reparo por exemplo que o conteúdo do jornal mudou. Hoje traz assuntos que não abordava na altura e vice-versa. Percebo que as necessidades dos leitores do jornal nos anos setenta não são as mesmas de hoje, no ano 2000. Mas há problemas que continuam a estar na ordem do dia como os problemas de Ensino, deTtrabalho, etc.

CONT.:Como vê o futuro do jornal? 

H.P.: Não sou vidente... Mas o que eu desejo para o CONTACTO é que continue por longos anos, tornando-se cada vez melhor, já que este jornal foi um dos sonhos do meu marido. Espero também que o jornal continue aberto a tudo e a todos, foi também sempre algo que defendeu o meu marido.

José-Luís Correia 
in CONTACTO, 05/05/2000

domingo, 1 de maio de 2005

FESTA DO 30°ANIVERSÁRIO DO JORNAL CONTACTO


FESTA DO 30°ANIVERSÁRIO DO JORNAL CONTACTO: (Da esq. para a dta.:) Gaston Roderes, Chefe de Redacção do CONTACTO, o Vice-cônsul, António Martins Antunes, Rui Dias Costa, Conselheiro social e cultural da Embaixada, José Araújo, Conselheiro social e cultural do Consulado, José Luís Correia, redactor no CONTACTO, e Jean Vanolst, membro da direcção do grupo ISP 
Fotos: Tessy Hansen 
in CONTACTO, Maio de 2000


(Da esq. para a dta.:) Isabel Silva, colaboradora da Redacção, Paula Ferreira, redactora, Manuela Geraldes, secretária da Redacçâo, Natália Morais, tradutora/correctora; e José Luís Correia, redactor

quarta-feira, 20 de abril de 2005

Manuel Luís Goucha: "Faz-me uma certa impressão ver portugueses a viverem em circuitos fechados"

Foto: Manuel Dias
O CONTACTO soube que um dos mais populares apresentadores da televisão portuguesa, Manuel Luís Goucha, estava de passagem pelo Luxemburgo. Não quisemos perder a oportunidade de trocar umas breves palavras com a companhia que nos preenche os fins das manhãs na RTPi, de segunda a sexta, em directo da cidade invicta, embora ele seja originário de Lisboa.

CONTACTO: Esta sua passagem pelo Luxemburgo é uma visita de trabalho para o programa „Praça da Alegria“... 

Manuel Luís Goucha: Para enriquecer o programa pensámos fazer uma série de reportagens sobre portugueses de sucesso nos países de acolhimento. Já fizemos umas dez em Paris. Vamos fazer umas quinze aqui no Luxemburgo. São conversas muito curtas, que passarão à razão de uma reportagem por programa.

CONTACTO: : Estão assim a pensar também nos espectadores que vos vêem pela RTP internacional ... 

M.L.G.: A 'Praça da Alegria' é primeiro um programa da RTP, que passa depois na RTP internacional. Os milhões de espectadores espalhados pelo mundo que nos vêem através da RTPi foram ganhando importância no programa. Deles recebemos chamadas diariamente. Mas o programa tem também uma componente muito ligada à cultura popular que é igualmente vocacionada para esse público. Estas rubricas, que estamos agora a fazer, estão, se calhar, até mais vocacionadas para o público que nos está a ver em Portugal continental e nas ilhas, porque estamos a dar a conhecer que há portugueses de sucesso por esse mundo fora nas mais diversas áreas. Não há só portugueses na construção civil e nos serviços de limpeza. É essa ideia que queremos passar para um público alvo, que neste caso é o de Portugal continental e ilhas.

CONTACTO: : Qual é a imagem que tem do Luxemburgo e da comunidade portuguesa aqui residente? 

M.L.G.: É a segunda vez que venho ao Luxemburgo. Passei por aqui uns três ou quatro dias há 25 anos. Fiquei com a ideia que a cidade do Luxemburgo era uma cidade muito bonita, muito verde, com uma grande qualidade de vida, também em termos ambientais. Tinha também uma imagem do Luxemburgo muito ligada a uma segunda geração de emigrantes. A comunidade portuguesa no Luxemburgo supreende-me muito porque na minha opinião é uma comunidade jovem, e os jovens já estão bem integrados neste país. Mas faz-me uma certa impressão ver ainda portugueses a viverem em circuitos fechados: frequentam as associações recreativas e os clubes desportivos portugueses, vão aos restaurantes de cozinha portuguesa ... Eu penso que a integração dos portugueses nos países de acolhimento tem que passar pela atitude que têm face às sociedades de acolhimento. Mas acredito que para a nova geração de portugueses, que já vai falando o luxemburguês, a integração vai ser mais fácil . A integração será plena quando os portugueses tiverem contactos diários com os luxemburgueses e quando fizerem parte de associações culturais luxemburguesas.
José Luís Correia entrevista Manuel Luís Goucha Foto: M. Dias


CONTACTO: Por seu lado, programas como o seu e a RTPi em geral têm dado uma outra imagem de Portugal aos jovens luso-descendentes... 

MLG.: Portugal é um país que evoluiu muito de há 25 anos a esta parte, é um país que se está a modernizar, é um parceiro privilegiado da União Europeia em termos históricos, com 800 anos de história, com muito para dar em termos de cultura. É importante que essa imagem seja passada para as comunidades de acolhimento.

CONTACTO: Como é que se sente a apresentar um dos programas mais populares das manhãs portuguesas? 

MLG: Sinto-me bem. São três horas em directo (mais três horas de preparação), é um programa divertido com muito ritmo, as conversas são muito curtas. É um programa onde me sinto bem, é o meu palco! É um programa que está para durar, vai fazer mil emissões em Setembro, e outras mil virão ...

CONTACTO: Numa carreira tão longa e diversificada como a sua, o que sente que ainda lhe falta fazer? 

M.L.G.: Falta fazer muita coisa ... Eu gasto o meu dinheiro todo em viagens. Eu vivo para viajar. Mas acho que não vou ter tempo de fazer as viagens todas que quero. Em termos profissionais ... não tenho grandes ambições. Vou seguir esta linha porque sei que o que estou a fazer agora é onde me sinto melhor e onde sou eficaz. Vou manter-me fiel a este tipo de programas de „conversa e de afecto“. Acho que encontrei o meu caminho na „Praça da Alegria“. Depois, vou continuar a aceitar outros convites especiais como para apresentar o Festival da Canção, o Natal dos Hospitais ...

CONTACTO: Continua a publicar livros sobre cozinha? 

MLG.: Sim , mas em parcerias. Tenho uma equipa de cozinheiros, de fotógrafos que trabalha comigo, e eu só tenho que fazer a parte de texto. Por isso continuo a sair com livros. Sai à razão de um livro por ano. Recentemente saiu um sobre massas, e já há um outro previsto para o ano ...

CONTACTO: Gostaria de deixar alguma mensagem especial para os portugueses do Luxemburgo? 

M.L.G.: Que se sintam orgulhosos de ser portugueses, mas que se integrem bem nas comunidades de acolhimento. Tem que ser feito um esforço para que se integrem para que não se sintam estranhos num país que não é o deles, e para conseguirem transmitir aos outros a imagem de um Portugal mais moderno e solidário. Têm tudo a ganhar em não viver em ghettos, em circuito fechado. Esta é a grande mensagem que gostaria de deixar ...
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Manuel Luís Goucha e a sua equipa estiverem no Luxemburgo a fazer uma série de reportagens sobre homens de sucesso no Luxemburgo para a „Praça da Alegria“. Estiverem na União Centro Cooperativo com José Trovão, depois passaram pelo Instituto Camões onde falaram com Rui Dias Costa. Visitaram igualmente a Rádio Latina, os Estabelecimentos Primavera, a loja Hugo Boss de Manuel Silva, o Restaurante The Good Friend. Manuel Luís Goucha pode ainda entrevistar „Os Apolos“, por ocasião dos 20 anos deste conjunto musical. Estas pequenas reportagens serão difundidas brevemente, pela RTPi, no programa „Praça da Alegria“ (de segunda a sexta, das 11h às 14 horas).

José Luís Correia 
in CONTACTO, 20/04/1999

sábado, 9 de abril de 2005

Adesão à UE a 1 de Maio: Eslováquia, optimismo moderado

O redactor do CONTACTO José Luís Correia (o primeiro, em cima, à esquerda), com um grupo de jovens eslovacos: Jana, Viera, Juraj e Daniel (da esq. p/ a dta) Fotos: JLC

Chegamos a Bratislava com a representação luxemburguesa da Comissão Europeia e do Ministério dos Negócios Estrangeiros luxemburguês que têm vindo a promover viagens de imprensa para apresentar os países que se tornarão membros da União Europeia (UE) a partir de 1 de Maio próximo.

Em Bratislava vivem 461.616 mil dos 5,4 milhões de habitantes (dados de 2003) que o país (com 49.035 km2) conta.

A capital, com mais de 2.000 anos de história, é também a cidade com mais jovens do país. Os prédios não muito altos, as charmosas ruas pedonais, os amplos e múltiplos largos e o rio Danúbio dão-lhe um ar de pequena cidade meridional.

A Eslováquia foi o últimos dos dez novos candidatos a provar que estava pronto a aderir à UE, depois de profundas reformas económicas e sociais, algo impopulares. O sistema das pensões foi reformado, a idade da reforma passou a ser mais tardia (aos 62 anos), os abonos familiares foram revistos em baixa, o ensino deixará de ser gratuito a partir de 2005, o custo das consultas médicas vai aumentar, os impostos também, enquanto que o ordenado mínimo continua a rondar os 150 euros/mês (cerca de 6.000 coroas eslovacas) e o ordenado médio não ultrapassa os 400 euros, o que deixa alguns eslovacos cépticos ou de um optimismo moderado quanto à futura adesão à UE.

Os eslovacos mais idosos argumentam que na época soviética não havia desemprego. que hoje ronda os 16%, com picos de 34% no leste do país. 50% dos eslovacos vive no limite da pobreza. Arrendar um apartamento pode custar entre 180 e 300 euros, o que faz com que a maioria dos jovens só saia de casa dos pais, casados. Não há habitações sociais, só casas e apartamentos privados. Quem não os possui, mal consegue pagar a sua renda.

Numa visita até Trnava, uma simpática pequena vila e centro católico do país, e logo à saída da capital, deparamo-nos com o "país real": pequenas aldeias que os jovens abandonam em prol da capital, uma população pobre que vive em casas vetustas e uma agricultura de subsistência marcada por pequenas hortas particulares.

Em Dubová, na planície ao sopé dos pequenos Cárpatos, encontramos Jaroslaw, de 43 anos, que está a cuidar das maçãs na sua horta. Como outros eslovacos com quem conversámos, Jarosloaw queixa-se dos salários baixos e que "na Europa ganha-se mais". Pensa por isso que a a UE "é capaz de ser uma coisa boa", mas não sabe bem o que espera o seu país e a sua gente num futuro próximo.

Mas se os eslovacos se queixam, mais mal ainda vive a minoria húngara (9,7% da população) no sul do país, que se sente discriminada e reivindica a autonomia em matéria de educação e cultura.
Bratislava, uma capital com um ar de pequena cidade meridional




O "problema cigano"

Pior ainda são os 400 mil ciganos, também discriminados no acesso ao emprego pela cor da pele ou porque têm um baixo nível de escolaridade. Segregados desde os anos 70 (pelo governo soviético e pelos que o sucederam) em mais de 600 ghettos urbanos no leste do país, mais de 150 mil ciganos passam fome e vivem na maior miséria (em barracas e casas sem as mínimas condições de higiene e de salubridade), sobretudo depois da reforma das ajudas sociais que foram diminuídas em cerca de um terço desde o início de 2004. Por vezes, a segregação degenera em marginalidade.

Em Fevereiro último houve vagas de pilhagens por parte de ciganos nas lojas de Kosice e Presov, o que fez aumentar ainda mais o forte sentimento anti-cigano dos eslovacos. "Os ciganos não fazem esforços para se adaptar à sociedade, pilham os campos, destroem as florestas para roubar a madeira", acusam.

Para Gunter Verheugen, comissário europeu para o alargamento, esta questão só se pode resolver pela educação e integração da comunidade cigana. Michal Vasecka, director do Instituto dos assuntos públicos, que se ocupa das minorias, denuncia os homens de estado eslovacos que não querem resolver o problema cigano, porque isso seria mal visto pela população e equivaleria a um suicídio político.

Lembra, no entanto, que o Conselho da Europa aprovou uma decisão para que os governos europeus favoreçam a ideia de que os ciganos são sobretudo cidadãos europeus, por forma a evitar que uma eventual futura emancipação identitária desta etnia resulte na reclamação de um espaço territorial no seio da UE.

Entretanto, todos esperam que a futura adesão e os dinheiros de Bruxelas sirvam para a inserção social desta comunidade. Jovens eslovacos optimistas com a UE Zuzana, 16 anos, diz que espera que a UE melhore a situação financeira do país, mas leu na imprensa que só em 2032 o seu país chegará ao nível europeu. Quando acabar os estudos não pensa emigrar, mas procurará trabalho na capital.

Numa esplanada, falamos com Tomas, 22 anos, empregado de mesa. Queixa-se do desemprego e da falta de dinheiro, mas gaba-nos a vida nocturna de Bratislava e "as mulheres mais bonitas da Europa de Leste". Afiança-nos que emigrará assim que puder para a Irlanda ou Reino Unido, únicos países que não impõem restrições à imigração dos novos estados membros de Leste. Os eslovacos emigram sobretudo para a República Checa, em melhor situação económica, Áustria e Canadá. Este último por incarnar o "sonho americano" e porque "continuamos a fornecer as equipas de hóquei em patins canadianas em novos talentos", gostam de lembrar os eslovacos.

Entrosamos conversa com Juraj, 24 anos, à porta da vetusta Universidade "Komenského" de Bratislava, que arbora uma sóbria arquitectura comunista de outros tempos. No átrio encontramos prospectos que gabam a continuação dos estudos na UE e nos Estados Unidos.

O estudante no 4°ano de Filsosofia começa por nos confiar que gostaria de se formar em Oxford. É originário de Tyrdosin (Norte do país) e estuda há sete anos na capital. Até agora, os estudos eram gratuitos, mas a partir de Janeiro próximo chegam as propinas. Juraj não está preocupado, diz simplesmente que terá que trabalhar mais para pagar os estudos, que poderão custar entre 3.000 e 20.000 coroas/ano.

O jovem reconhece que há lados positivos e negativos na adesão à UE. "A economia vai crescer, o desemprego está a baixar constantemente e deverá ainda baixar mais 2% nos próximos dois anos", diz-nos, convicto que não haverá emigração massiça após 1 de Maio.

Apesar de ser a favor da adesão à UE, diz que percebe o sentimento de optimismo moderado dos seus compatriotas, porque "as pessoas não sabem o que a UE vai mudar no seu quotidiano". Apesar de uma identidade milenar, a Eslováquia é independente há apenas 10 anos: a "Revolução de veludo" separou o país da República Checa, em 1993.

O jovem lembra-nos que a Eslováquia já foi húngara, turca, checoeslovaca, soviética, e que as pessoas consideram que, afinal, pertencer à UE é apenas mais um passo e esperam somente que lhes reserve uma vida melhor.

Entretanto chegam alguns amigos seus: Viera (29 anos), Janka e Daniel (27 anos). Janka é professora de Sociologia na mesma universidade, onde ganha pouco mais de 250 euros/mês. Consciente dos problemas que o país enfrenta, esta jovem fala-nos da UE com optimismo, porque acredita que as coisas só podem melhorar.

Surpeende-se pelo nosso interesse no seu país e propõe-nos uma visita guiada. Fala-nos dos cafés da rua Venturska, a Broadway de Bratislava, onde se encontram actores e artistas.

"Bratislava é a cidade mais jovem do país graças aos seus 45 mil estudantes e isso repercute-se na vida cultural e nocturna da cidade", conta.

Daniel, funcionário na administração da Universidade, elogia os bons vinhos brancos do seu país e propõe-nos que provemos a "borovicka" (álcool de genebra). Juraj apresenta-nos a "kofola" (refrigerante eslovaco) e gaba o queijo fresco "bryndza" da sua região, que devemos provar no pão ou com o prato nacional eslovaco, o "bryndzov é halusky", uma mistura de batatas com farinha, acompanhada de queijo de cabra fresco e toucinho frito. Saboroso, mas um tanto ou quanto pesado.

Indústria automóvel aposta no país 

Para muitos estrangeiros, a Eslováquia é um país propício para investimentos, considerado estratégico devido ao triângulo Praga-Viena-Budapeste, do qual é vizinha a capital eslovaca (a 60km de Viena).

Os eslovacos, esses, contam sobretudo com a indústria automóvel para sair o país da situação financeira onde se encontra actualmente. A Volkswagen está já fortemente implementada no país. Quanto ao primeiro automóvel a sair da fábrica Peugeot-Citroën na Eslováquia está previsto para 2006. E a Hyundai também optou pela Eslováquia, chegando em 2007, o que tornará o país o maior produtor de carros do mundo, per capita.

José Luís Correia,
in CONTACTO, 09/04/2004

sexta-feira, 1 de abril de 2005

Com Nuno Gama


José Luís Correia em entrevista com José Campinho e Nuno Gama, por ocasião da abertura da loja do estilista portuense na cidade do Luxemburgo Foto: Anouk Antony
in CONTACTO, Abril de 1997