

Para esta Administração
- prefiro dizer "Administração" porque, além de ser a tradução literal do termo norte-americano para Governo (administration), assenta que nem uma luva a um Executivo que tem mais preocupações económico-financeiras e comerciais com os parceiros que o colocaram no poder e a quem tem essa factura para pagar (leia-se os grandes conglomerados industriais do petróleo e das armas), do que propriamente sociais, ou senão vejamos como o comum dos fellow citizens é tratado nos Estados Unidos a nível de protecção social (who cares!, é o cada um por si, como mostrou o filme de Michael Moore, "Sicko"!) ou como a Casa Branca geriu a tragédia das cheias na Nova Orleans (2005), mais alerta aos furtos nas vivendas afortunadas do que nas condições que os sobreviventes (a maioria oriunda das classes pobres) tinham que enfrentar -,
(desculpem-me o longo intróito!
para a Administração Bush, dizia eu, as coisas definem-se sempre assim: ou é branco ou preto!
Nem estou a (mas até poderia!) fazer referência ao segragacionismo, mas reparem como desde sempre os governos norte-americanos optaram por explicar aos seus cidadãos que só existem dois lados para uma questão: a boa, que é forçosamente aquela que o "nós, colectivo americano" defende, e a deles, "a má", a dos bad guys. Como os índios e os cobóis. Se uns são os bons, os outros só podem ser os vilões. E assim foram durante muito tempo retratados no cinema. A mensagem era simples e o público engolia estupidez às colheradas.
Quando, logo em 2001, a Administração Bush optou pelo termo "eixo do mal" para definir as "forças malignas" que haviam estado na origem dos atentados do 11 de Setembro e designou um "mau da fita", que, por acaso se chama Osama Ben Laden (este até foi treinado pela CIA, mas bem podia ser outro!), não o fez inocentemente! Entendeu e bem que era a maneira mais fácil de reunir à sua volta o maior consenso possível e obter "carta branca" para tudo o que viesse a decidir para erradicar esse "mal". Para a opinião pública norte-americana, nas iris dos quais ainda fumegavam as cinzas das torres gémeas, a solução estava encontrada. Os corações amargurados nem podiam ser um dia acusados de vendetta porque, neste caso, era mesmo justiça que se iria fazer.

E foi com o mesmo "espírito" que os EUA "alegremente" decidiram a invasão do Iraque em 2003. Supostamente para encontrar armas de destruição massiça e derrubar um ditador sanguinário. Recordo que as temíveis armas não foram descobertas e ditaduras duras, infelizmente, há outras. Embora reconhecendo a repressão e a barbárie que Saddam Hussein exercia contra o seu povo, considero que esta intervenção se fez da forma errada e que cabia às Nações Unidas executar o que fosse decidido pela maioria dos países com assento na instituição. O policiamento não cabe aos EUA. Nem eles são a cavalaria que chega de trompete em riste, nem os iraquianos são os índios.
Isto faz-me pensar num interssante diálogo no filme "Good Morning Vietnam" (Barry Levinson, 1987) quando Robin Williams, que interpreta o locutor de rádio Adrian Cronauer, das forças militares norte-americanas, descobre que o jovem amigo vietnamita Tuan (o actor Tung Thanh Tran), com quem tinha travado amizade (e que o faz escapar, inclusive, a dois atentados) é afinal um viet-cong. O diálogo foi mais ou menos este:
Locutor: Fiz-te confiança e descubro que fazes parte da porra do inimigo?
Vietnamita: Inimigo, inimigo, quem eu? Tu, que vens de tão longe para matar o meu povo, chamas-me de inimigo?
(diálogo completo aqui, nos últimos dez minutos do filme)
Não vos faz lembrar nada? (Does this ring a bell to you?)
A Guerra do Vietname, em que os Estados Unidos tinham embarcado supostamente para libertar o país do jugo comunista que pairava, transformou-se num lodaçal onde morreram cerca de um milhão e meio de vietnamitas e quase 60 mil soldados americanos. Um guerra que durou 15 anos.



Fotografias, com a devida vénia: "mão ensanguentada", foto de Ahmeed Rasheed (Associated Press); "snipers iraquianos atacam soldados americanos", foto de João Silva / New York Times.
N.B.: As fotos serão retiradas se os autores assim o exigirem.
N.B.: As fotos serão retiradas se os autores assim o exigirem.
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